17 de Abril

Ele olhou para os reflexos na água. Viu seu rosto, reconheceu os olhos, a boca… mas não entendia como aquela imagem poderia ser dele. Toda a sua memória passava em frente aos olhos e nada parecia justificar aquele momento, aquela imagem, aquela dor.

Os demais reflexos que ele via eram estranhamente familiar. Pessoas comuns, possíveis pais e filhos, maridos e esposas. Eles eram humanos como ele… mas como?… como eles podiam se comportar assim? Essa pergunta ecoava ao vê-los agir naquele picadeiro cruel.

MedoTentou se imaginar na posição deles. Tentou imaginar motivos para validar aquele comportamento. Tentou criar uma linha onde aqueles atos fossem a resposta necessária para um futuro melhor… mas assim como o ar estas ideias falharam.

A pressão na sua nuca o força a encarar a realidade. Uma onda de arrepio toma conta de seu corpo em direção a garganta, e então… emoções, gritos, bolhas. Na confusão de pensamentos ele deseja gritar “sim”, deseja contar tudo… mas o “não” é a única coisa que sai de sua boca. Ele deseja saber para poder contar e afastar aquele momento… no entanto sua vida simples o traiu… e agora ele encara seu próprio olhar de medo.

O gelado percorre seu corpo, dominando cada centímetro, tateando todos os lugares até colocar as garras na alma da criança que ainda morava ali. Subitamente tudo aquilo se esvai e o ar rasga a carne trazendo uma felicidade misturada com horror.

Ele não consegue ver naqueles reflexos homogêneos as várias nuances da população. Ainda assim, ele consegue reconhecer alguns comportamentos, alguns vícios, alguns preconceitos. Ele sabe que eles não o representam… mas ao mesmo tempo eles são nosso reflexo… se não o individual… pelo menos o coletivo.

As lagrima rolavam, os gritos ecoavam e o medo o guiava. O sangue escorria, mas sem dor… naquele momento a dor dos chutes não incomodava tanto… o medo da água era muito maior… O medo de ver novamente o seu rosto encontrar seu reflexo.

O dia começa com Maria procurando por Silva… fala com amigos, vizinhos, polícia e hospitais… mas nada. Ela senta em um banco de praça e permanece ali, invisível aos transeuntes e incapaz de pensar… seus olhos são guiados para uma manchete de um jornal que é levado pelo vento.


“Vibrante manifestação sem precedentes na história de Santa Maria para homenagear as Forças Armadas. Cinquenta mil pessoas na Marcha Cívica do Agradecimento”

(A Razão – Santa Maria – RS – 17 de Abril de 1964)