Seu João

Em 1616 surge Santa Maria de Belém, o mais antigo ponto de presença europeu permanente na Amazônia continental. O lugar agraciado é denominado Forte do Presépio, em frente à baía de Guajará, na foz do rio Guamá no rio Pará. No mesmo rio foi fundado em 1957, a Universidade Federal do Pará ou, para os íntimos, apenas, a Federal.

Quão linda é a casa do conhecimento? {www.skyscrapercity.com}


A primeira vez que entrei nessa casa do conhecimento eu ainda era uma criança. Estava fazendo uma pesquisa sobre matemática. Na verdade a pesquisa pouco importa, o que eu queria mesmo era conhecer aquele lugar, algo mágico, para mim.

O lugar era imenso, na minha cabeça iria encontrar cientistas loucos com seus experimentos, tentando mudar o mundo. Para minha infelicidade depois de algumas horas lá, não vi nenhum experimento, muito menos um cientista louco.

Anos após eu entrei na universidade para fazer minha graduação e me habituei a ela. Apesar de seu tamanho considerável, para mim ela já era pequena, afinal ela era minha casa. Aprendi a apreciar cada canto da federal, principalmente a beira do rio Guamá.

Imagine, às 9h da manha, você escutar os pássaros, que cantam ao brincarem com ameixas em uma arvore, ao lado de um rio lindo que banha toda uma orla, como uma carícia. Especificamente, nesta parte do rio, é bem fácil de visualizar sua outra margem, trazendo um tom ribeirinho a imagem. É como se voltássemos à época de criança, quando era possível ficar horas, apenas apreciando as belezas que a natureza oferecia.

Definitivamente, não encontrei os loucos cientistas, mas encontrei pessoas. Encontrei gente que chega à universidade de carro importado, com cara de sono, porque ainda estava dormindo às duas da tarde, que apenas vê uma aula e vai embora, porque ele realmente não precisa estar aqui, a vida já o abençoou, talvez.

Também encontrei gente que chega às 19h, cansando após um dia de trabalho, tendo que acompanhar as aulas e depois chegar a casa, cuidar da família e estudar, e se der tempo dormir antes de começar tudo novamente. Assim é a Federal, é um rio de contradições, mesmo assim é o local onde o conhecimento mora, e se apresenta aquelas que estão interessados.

Terminei minha graduação e no final da cerimônia a seguinte frase foi dita a todos nós: “Lembrem-se que vocês tiveram uma oportunidade única. O seu João que mora no interior do rio Guamá, tem cinco filhos, trabalha na roça, seus filhos nunca foram à escola, e possivelmente nunca irão à universidade. Seu João paga impostos e desta maneira paga pela universidade que vocês estudaram. Por isso dêem o determinado valor ao que aprenderam aqui, e usem isto para melhorar a sociedade, pois vocês têm uma divida eterna com o seu João”.

O Bicho Urbano

O homem sempre teve uma relação muito forte com os animais, principalmente aqueles que eram usados em tarefas cotidianas, não falo aqui de boi ou frango, falo daqueles animais aos quais os homens se apegavam e desenvolviam uma relação de amizade. Comumente a conquista de um animal que você pudesse chamar de seu, sempre esteve relacionada a um rito de passagem. Isto vária de acordo com o grupo envolvido e o tempo.

Seremos um!!!


Em muitas tribos o que caracterizava a passagem de criança para homem era conseguir domar um animal selvagem, sendo este normalmente um cavalo. Havia uma seria de requisitos a serem cumpridos, dentre eles haveria de ter uma relação entre os dois, uma especie de contrato de almas, ou simplesmente uma afeição, que normalmente era fruto do temperamento tanto do homem quanto do animal.

Quanto mais forte e indomável fosse o animal, mais mérito teria o homem ao domá-lo. O força de vontade do animal de se manter livre , refletia a força de vontade da criança em se tornar um homem.

Apesar do termo domar, após um tempo o que deveria restar era uma relação de amizade entre ambos, onde um aprende com o outro, um ler o outro, um sente o outro. Seus espíritos estão juntos, seus corpos se fundem no momento e eles se comportam como um só, o homem provendo a racionalidade e o animal provendo todos os instintos e força e o homem já perdeu com o passar do tempo.

Es que atualmente, o homem urbano ainda faz um rito de passagem. Seu animal mudou, seu espirito mudou. Hoje o ritual pode acontecer após os 16 anos, o animal não tem mais vontade, não tem sentimentos, não tem extintos, não tem vida. Não exite mais aquela troca entre o animal e o homem.

Nosso bicho urbano esta espalhado por todos os cantos, mas agora não é a força ou a coragem que ira definir que terá o melhor animal, quem define é um fator econômico. Todos querem um animal melhor, não porque isso ira fazer deles homens mais nobres, mas porque a sociedade vê isso como bom.

Esse novo bicho urbano, não tem patas, não tem olhos, não sente nosso contato e principalmente, não olha para nos e entende nossos olhares. O bicho urbano hoje é apenas um carro, e a parte racional que antes era provida pelo homem hoje se perdeu, somos um leve vestígio do que já fomos. Não nos identificamos com a natureza, não entendemos os outro, não queremos saber dos outros. Simplesmente ignoramos que temos duas orelhas e apenas uma boca.

Antes o homem dominava o animal, hoje o homem é dominado pelo bicho urbano e o pior, o bicho nem pensa por si.

Como ficamos tão fracos assim???