Cantores do Porvir

Lembro das histórias contados no livros e filmes sobre os escritores de antigamente. Eles eram jovens, inconsequentes e muitas vezes alcoólatras. Normalmente, garotos de famílias nobres que abraçavam seus espíritos poéticos com tanta força que acabavam por sair do palco cedo demais.

Esses espíritos livres reuniam-se em clubes, porões, praças e bares, para juntos se embriagarem de poesia. Lá eles compartilhavam suas alegrias, tristezas e medos. Entrar naquelas cavernas era uma maneira de conhecer os outros e a si mesmo. Nessa época, a arte era vivida. A poesia nascia regada a vinho, risos e lágrimas. O sofrimento exposto por um era a inspiração do outro.

Hoje, os tempos mudaram. A poesia nasce triste e solitária. Algumas vezes ainda regada a vinho, porem isolada. Os novos poetas são cães presos. Cada um em sua caverna, sem conseguir se libertar das correntes.

Em seus contatos eles não partilham uma taça de vinho. Sequer compartilham o mesmo espaço, agora tudo é virtual. Muitas vezes, sequer o tempo é compartilhado. O clube de poetas virou “grupo” na Internet. Leitura entre amigos virou “post”. Risos e lágrimas de agradecimento viraram “curtir”.

Continuamos namorando as idéias, despido-as e sentindo-as. Escrevemos nossa maneira de ver a vida. Criamos e desconstruímos o mundo com nossas palavras. Mas no fim somos crianças querendo sair para brincar com os amigos no parque.

Hoje seguimos o exemplo do pássaro de Hermes que comia sua próprias asas para se manter dócil. A solidão coletiva impera.

Consquista

A primeira coisa que ocorre é aquela troca de olhares. Meio sem querer, de maneira despretensiosa. Quando os olhos se encontram o tempo pára por alguns segundos. Neste momento o universo se resume a dois olhos.

Depois do encanto inicial pela beleza, vem o arrebatamento pela essência. Você não a conhece realmente, mas naquele momento, crê que viu sua alma. Nua, se expondo, sem pudor. Você  à deseja.

Começa o período  da conquista. Um jogo de palavras, gestos, caras e bocas. Ela se esconde, brinca, dança, ri e revela-se. Você a vê como ela é. Sem os requintes, sem a maquilagem, sem a sombra. Você a vê crua e ama o que vê.

A dança continua. Ela já sabe que você a quer. Ela dança de maneira mais sensual. Chamando, cativando, encantando, quase machucando. Ela esta na sua forma mais atraente, sua forma bruta e natural. Suas formas estão claras aos seus olhos. Seus altos e baixos. O doce e o amargo. Tudo nela lhe embriaga.

Você já a despiu, mas ela ainda consegue fugir, desaparecer como fumaça. Mas ela volta. Rindo. Ainda mais provocante. Ela é tudo que você pensou. Um passo, uma mão, uma volta, um braço, um rosto e um beijo. Ela é sua.

A loucura passa. A Conquista foi realizada. Ela é mais uma para você agora. Mas você ainda olha pra ela de maneira especial. Sabe que ainda não terminou, sabe que precisa ir mais adiante. E o próximo passo será o mais difícil. De nada vale a conquista se ela não se tornar real.

Cabeça imóvel. Olhar perdido no horizonte. Tudo que vê é uma folha em branco e um desafio. Agora é a hora final. A hora de colocar a idéia que foi conquistada no papel.

Branca de Neve

Ela acordou e caminhou pela casa. Quase não reconheceu as paredes que foram os muros do seu castelo na infância. Viu fotos espalhadas. Lembrou das brincadeira, dos risos, dos amigos, do namorado.

Os pais a esperavam com o café à mesa. Eles parecem mais velhos, bem mais velhos. A mãe com os olhos inchados de tanto chorar. Será que brigaram novamente?

Apesar dos rostos cansados, os dois estão contentes. Felizes. Não, eles não brigaram. A mãe a olha de maneira carinhosa e lembra da menina que sujava as paredes da casa sonhando em ser pintora. O pai lembra da jovem cheia de energia que entrou na universidade, dos planos para o futuro.

Ela senta-se para comer. Pega uma colher e olha para a mão. Ela não reconhece aquela mão. Ela corre para o banheiro e olha no espelho. Também não reconhece o fantasma que esta a sua frente.

As lembranças começam a voltar de maneira dolorosa. Lembra de sair com os amigos. Uma dose, um “pega”, um “tiro”. Não fazia isso sempre, mas relaxar é bom. Imagens confusas – as drogas fazem efeito. Uma parada para outro “tiro”. Taquicardia. Paranoia. Gritos. Ela procura pelos amigos. Olha para a parada. São 2h30, o ônibus nunca atrasa. Gritos, freios, a dor, o sangue.

Foram meses no hospital. Para ela foi apenas uma noite. Para os pais, anos. Ela saiu quase ilesa. Mas todos os dias era aquela tortura matinal para lembrar o que aconteceu. Ela desce e encontra os pais e o namorado. Ela sorrir para ele e ele sorri de volta, quase chorando de tão emocionado. Ele sabe que hoje será um dos dias bons. Hoje ela lembrou dele.

Bicho Homem

O que fazer quando a vontade se esvai? Quando a força falha? Quando a crença em si é perdida?

Nunca teve problemas com as dificuldades. Para ele elas eram apenas um obstáculo. Apenas um aprendizado. Quando a vida lhe machucava ele batia de volta. Com mais força. Com mais vontade. Cada problema era uma maneira de melhorar.

Ele continuou. Chuva. Sol. Só o seu sonho importava. Cair era inevitável. Levantar era necessário. Cada vez mais consciente de suas habilidades e de suas limitações, ou melhor, das coisas que ele tinha que melhorar. Não conhecia limites. Essa palavra não existia para ele.

Não se importava com a maneira que as pessoas o olhavam. Era dono de si. Nasceu lutando. Brigou com o mundo desde o primeiro momento. Criança forte, cresceu apanhado e revidando. Só olhava para trás para manter sua obstinação. A vida foi dura, o tratou como bicho. Ele aceitou a carapuça e se vestiu de bicho. Criou garras, prezas, destreza e coragem.

Quando nasceu foi tratado como um verme. Jogado em um canto, entregue ao acaso. Aprendeu neste momento que nada viria de graça. Então fez tudo que podia. Gritou.

Na infância foi um rato. Se escondendo, sujo, comendo restos, indo de um canto para o outro. Sem uma casa, sem proteção. Seus dentes e mão eram suas armas. Seu abrigo era embaixo dos viadutos e seu restaurante a lata de lixo.

Sua adolescência lhe revelou um novo mundo. Aprendeu a roubar, virou gato. Se escondendo, sendo ágio, esperto. As dores, tanto físicas quando psicológicas, o ensinaram a estar sempre um passo a frente de todos.

Cresceu machucado, forte e feroz. Se tornou um leão. Agora mandava nos outros gatos. Era seu bando, sua família. Ele era o rei naquela selva urbana. Nunca disse ‘por favor’ ou ‘obrigado’. Nunca recebeu uma gentileza. O mais forte sobrevive. Foi o que a vida lhe ensinou.

Ele sentiu o gosto do ferro. Primeiro da lamina, depois do sangue. O mundo ficou vermelho. Nunca viu o mar e agora se afogava no seu próprio sangue. O vermelho se tornou negro e ele não pode ver o nascimento do outro leão.

Bicho de Sete Cabeças

Primeiro é uma afago, um sussurro, um sorriso. Ela chega já intimidando, mas ao mesmo tempo te fazendo se sentir em casa. É um arrepio estranho e um prazer indescritível a cada carícia. Não existe um ápice, não existe o momento culminante do gozo, tudo é um grande orgasmo.

Você tenta separar as coisas, para aproveitá-las de maneira sutil, mas ela é arrebatadora. Ela te põe no chão, te joga lá embaixo. Mas, de repente, você  percebe que esse chão é o céu. Não há palavras, bocas fechadas, ouvido atento. A pele sente o gosto, mas pode o som ter um gosto?

Após muito esforço você consegue ficar de pé e olhar com mais profundidade para ela e separar cada parte. Você se vê tocado por mil mãos, cada uma com um movimento diferente, indo a direções diferentes, mas todas lhe dando prazer.

Olhos fechados, imaginação em ação. Altos e baixos. Rápido e lentamente. O conjunto é harmônico. Mãos invisíveis lhe carregam e você é transportado para outro plano. Onde o seu corpo não existe, ou melhor, onde ele não precisa existir.

Os demais sentidos são abandonados diante da superioridade de apenas um. Sozinho ele é capaz de fornecer tudo que precisa. Cada pedaço é saboreado, com um gosto, uma textura um cheiro, uma cor única. Finalmente você se rende, perante a grandeza, delicadeza, beleza e magia de uma única canção.

Obs -> leia novamente escutando Bicho de Sete Cabeças

Despertar

Ele praticamente não dorme. Ele não precisa disso, mais ainda, ele não pode dormir, pois ele nunca para. A única coisa parecida com descanso é um período no qual ele fica sereno, calmo, enfim, diferente.

São 2 horas da manha e ele desperta de seu descanso. Olhos cansados, ossos doendo do frio, cabelos desarrumados, palavras presas na garganta esperando pela oportunidade de fuga, cheiros diferentes, ainda novos e doces, água batendo, barcos chegando e trazendo a vida.

Seu despertar é como um parto: gritos, sangue, choros, alegrias. Seus sentidos despertam aos poucos, um após o outro pra redescobrir o mundo que foi deixado para trás.

O primeiro sentido é a visão. Uma explosão de cores e formas, dispostas seguindo a pura ordem dos caos. Aqui até o estático é belo, pois para cada lado existe a contradição. A velha briga entre o novo e o velho. Ou seria namoro?

O segundo é o tato, quando a movimentação começa, são vários ao mesmo tempo, todos caminhando, correndo de um ponto ao outro. Carrega, descarrega, joga, puxa, tira, põe.

A audição vem em seguida, respondendo aos movimentos. É um bate-bate, coisas escorregando, gritos, rissos. As palavras antes prezas se soltam, ganham a liberdade e lhe acertam com toda a força. Aqui não é uma corte, aqui é o mundo real.

Os cheiros despertam, primeiro doces, ainda misturados com o ar da madruga, depois amargos. É o suor, é a perfume, tudo vira um só. Ele lhe embriaga, ele é forte, não te deixa decompô-lo. Esse é o cheiro dele.

O paladar é o ultimo. Ele segue o olfato, porem sem a mistura. Em cada canto um gosto. É frito, cozido, assado, crú. É natural, é orgânico é puro. Gostos de todas as partes, trazidos pela maré, se juntam aqui, lhe permitindo fazer uma viagem.

Os primeiros raios de sol chegam até ele. Suas formas terminam por revelar-se, mostrando suas contradições, sua sujeira, suas imperfeições, sua beleza. É mais um dia no Ver-o-Peso.

Rei

Ele despertou naquela manha cinzenta, seus olhos vislumbraram até o limite dos seus domínios. Lembrou dos bons momentos que tivera naquela terra e de como foi feliz nesta vida. Onde pela manhã seus criados traziam-lhe café em seus aposentos. Eles pareciam felizes em servir a um senhor tão nobre.

Ele morava em seu castelo, com aposentos privados. Os criados moravam em outra residência dentro dos seus domínios. Quando precisava de um banho os criados vinham banhá-lo. Quando queria se divertir, os seus súditos o alegravam. Algumas vezes ele saia de sua propriedade, mas sempre acompanhado de alguns criados. Seu mundo era os seus domínios. Lá ele era o rei, o centro das atenções. Todos trabalhavam e viviam para ele.

Ele recordava do nascimento de alguns de seus criados, apenas dos mais novos. Não lembrava da própria família, de quem herdou o reino. Antes mesmo de ter nascido alguns dos criados já estava lá, sempre fiéis ao seu senhor.

Quando ele adoeceu os criados ficaram tristes, trouxeram médicos, remédios, orações. Os criados mais velhos eram fortes e escondiam as lagrimas, mas as crianças não conseguiam suportar vê-lo dessa forma. Elas choravam.

Aquela manha cinzenta foi a ultima que viu. Ele olhou com carinho para os seus criados. Ele não tinha herdeiros e tudo que era seu passaria para seus súditos. Ele estava feliz com isso, eles foram tudo para ele.

Seu enterro foi no quintal da casa, próximo de onde ele vivera. Com uma serie de homenagens, lagrimas, sorrisos e lembranças. As crianças choravam e se despediram de seu amado animal de estimação.