Toc-toc

Quatro, cinco, seis horas. Ele não sabia há quanto tempo estava lá. Acordou em um local escuro. Estava desnorteado, não podia enxergar nada, mas podia sentir que não estava só. Seus irmão estavam ao seu lado, compartilhando do mesmo medo.

Ele percebeu que estavam em movimento. A visão o havia abandonado, o terror os impediam de falar um com o outro, porem o tato ainda estava presente. Ele estava lá, atormentando-os a cada segundo, sempre lembrando-os dos corpos dos irmãos, uns frios, outros quentes. O tato era o seu algoz e a esperança de não ser o único vivo era tudo que lhe restava.

Ele tentou lembrar o que aconteceu. Se recorda de sair de casa e de ser atacado pelas costas. Lembra que tentou lutar, mas sua força fraquejou. Depois tudo que viu foi a escuridão.

Foram colocados em uma pequena prisão. De repente a luz. Olhou para seus irmãos e viu uma mistura de ódio e medo em seus olhos. Sessenta olhos, trinta cabeças e um só desejo: Viver!

Um a Um ele foram separados do grupo. A cor clara da esperança em seus olhos se transformou em um negro de terror. Se a coletividade o dava algum conforto, esse sentimento logo também lhe foi foi arrancado. Ele foi o único que restou no cativeiro.

Novamente a luz. No entanto, dessa vez ele estava solitário. Sem irmãos e sem armas. Ele rezou para que isto tudo fosse um sonho, seu pior pesadelo, mas ele não despertou.

Para a esquerda, para trás, agarrar, apertar. Nada funcionou. Ele foi retirado do cativeiro. Quando se viu fora daquele lugar, pensou que estava livre e correu, com toda sua força e com toda sua esperança. Pensou no outros 29, mas a liberdade o embriagava. A realidade o agarrou novamente pela garganta. Ele olhou para os lados e viu os corpos inertes dos seus irmãos. Nesse momento o desespero o dominou.

Ele sente alguém puxando-o de volta. Ele não queria olhar. Ele se estica e segura em algo. Membros estendidos em forma de cruz, do lado direito a liberdade do lado esquerdo a morte. Com os braços abertos rezou para os deuses e quando não teve mais forças chorou e soltou o lado direito.

Seus membros foram arrancados, um martelo os atingia e quebrava-os. Sua cabeça foi aberta e saboreada. Sua vida se esvaiu ao som do toc-toc.

Suor alegre

    Ruas cheias, pessoas indo para lugar nenhum. Uma multidão de seres agindo como um. Eles compartilham a rua, o ônibus e acima de tudo o calor. O suor reivindica seu lugar de direito. O corpo chora. Mais gente, mais calor, mais suor.

    Os ânimos se afloram, um grito, um palavrão. Agora eles não são mais humanos, são os pelos de uma metrópole, agindo por impulso, cravando suas raízes nela e absorvendo parte de sua essência. Eles se alimentam dela, pedaço a pedaço, ela sofre, mas é uma dor com um certo prazer.

    Os carros também se modificam, se transformam em bichos rasgando suas entranhas, fazendo barulho, gerando poluição. Eles a marcam, todo o seu corpo é usado. Desde os locais mais nobres aos mais sujos. Ela esta lá, exposta, marcada e sangrando pelas feridas.

    De repente, um barulho diferente, uma correria e os pelos se escondem. Os bichos se acalmam. O calor se atenua e o suor cede seu espaço. Por um momento ela se transforma. Ela adquire cores novas, ela fica com um cheiro diferente.

   O tempo para e os pelos contemplam a sua beleza. Agora é ela que esta suando. É mais uma tarde de chuva em Belém.