Coração de Pedra

Ele sempre a acompanhou. Quando ela ainda era criança ele gostava de vê-la brincar, gostava do seu interesse pelas artes, da sua curiosidade sobre tudo. Mas durante a adolescência ele deixou de vê-la. Talvez os hormônios, as escolhas, os primeiros amores. Ele não sabia, mas foram anos sem vê-la. Anos naquela solidão rodeado de pessoas.

Era uma terça feira, um dia comum, pessoas passando, crianças gritando, um verdadeiro caos. Mas em meio a tudo isso duas luzes o encontraram. Neste momento o mundo se resumia àquelas luzes. Como uma criança amedrontada diante do desconhecido ele tentava daquelas luzes tão fortes e encantadoras que chegavam a serem aterrorizantes.

Desnorteado e sem forças ele se entregou e olhou profundamente para elas. Dentro daqueles olhos ele encontrou a mesma menina e o brilho dos seus olhos o envolveu como um abraço. Naquele momento ele sabia que estava tudo perdido. Ele era dela.

Todos os dias eles se encontravam. Ela o olhava com uma ternura que o fazia quase chorar. Ele a amava, mas não conseguir se declarar. Anos se passaram e eles continuaram olhando-se ternamente sem mas nunca trocarem uma palavra. Nunca uma carícia. Todo o amor era representado nos olhos.

Foi em uma terça feira que ele a reencontrou e foi em uma terça-feira que ele morreu. Ele a esperava para alimentar o vicio daqueles olhos. Ela entrou e o olhou da mesma forma. No entanto, ela não estava só. Ele a olhava e outro falava com ela. Ele a olhava e outro a tocava. Ele a olhava e outro a beijava.

Os mesmo olhos que sempre a viram, tentaram chorar mais não conseguiram. A mesma boca que nunca pode falar para ela que a amava, também não pode gritar agora. O mesmo coração que sempre a amou agora amaldiçoava o artista que o esculpiu.