Um dia Frio

    É uma manhã atípica, são sete da manhã e as janelas ainda dormem. As pessoas acordam mas não conseguem acreditar no que sentem. Aquela, definitivamente, não era uma manha normal.

    As nuvens encobrem a cidade. Uma neblina se espalha mudando as cores, trazendo consigo uma calmaria com gosto de inverno.

    Janelas abertas, olhares de preguiça. A rede abraça com uma força nunca antes vista. Ela parece uma amante aquecendo seu amado e querendo mantê-lo eternamente junto.

    A primeira briga é vencida. Agora o banho. A água natural que sempre ajudou a despertar para o dia, hoje cai como facas rasgando a carne e a alma. Hoje ela não é amiga. Hoje ela congela até os ossos.

    As velhas roupas saem do armário. As mesmas sempre esquecidas, sempre indesejadas. Hoje brilham e trazerem consigo o calor usual.

    Hora de encarar o dia frio, de olhar a cidade com diferentes olhos, pois ela está diferente. Ela esta mais lenta, mais cinza, talvez até mais charmosa. Todos vestidos com suas roupas de frio. Até a cidade veste essa neblina.

    As horas passam vagarosamente e o calor usual retorna. Aquela manhã foi diferente. Uns juram que quase nevou. Aquela foi uma manhã paraense de 23ºC.

Viver!!!

    Eles se encontraram após muitos anos de separação. A vida tinha proporcionado o reencontro. Olhares e abraços. Ritos de uma amizade longa. Já se conheciam há anos. Cada um sabia a historia permanente do outro. Já as histórias que são escritas enquanto vivos, ainda era um segredo não revelado.

    Cada um contou dos lugares que estiveram, das pessoas que conheceram, dos cheiros que provavam e principalmente dos sentimentos que sentiram.

    A primeira vez foi difícil para ambos. Eles se sentiram solitários e como se tivessem sido abandonados após um ótimo relacionamento. Lembraram do medo do desconhecido e não entendiam que para viver era preciso deixar ir e se deixar levar.

    Um lembrou de uma noite que passou com uma família. Todos o receberam de braços abertos. Falou da maravilhosa noite a beira da lareira onde ele era o centro das atenções e o motivo por ter a família toda reunida.

    Outro lembrou de uma semana que passou em uma ilha paradisíaca com um grupo de jovens. Gente querendo se divertir, compartilhar e amar. Lembrou do luau onde inebriados pela atmosfera todos ecoavam seus versos e viviam como se não houvesse amanhã.

    Eles lembraram das viagens ruins que fizeram e mostraram as cicatrizes tanto físicas quanto mentais. Infelizmente eles haviam conhecido pessoas ruins na estrada, mas isso nunca os fez parar.

   Acima de todas as lembranças uma se destacava. Em uma de suas aventuras ele acabou conhecendo um novo amigo. No entanto, esse amigo passou por tempos difíceis e não suportava mais viver. Ele contou como passou semanas tentando convencê-lo a não desistir. Contou como o carregou em seus ombros e o trouxe de volta. Também falou da emoção da despedida e o sorriso de amizade de ambos.

   Após contarem suas novas historias eles respiraram orgulhosos um do outro por saber que o outro continuava a explorar o mundo. Eles olharam ao redor e viram o sebo. Se deitaram e esperaram pacientemente o próximo comprador de livros.