Voyeurismo

Não se sabe quem começou. Quem conheceu quem primeiro. Quem se relacionou primeiro. O que se sabe é que os três sempre tiveram um relacionamento.

O prazer de olhar e ser olhado

Atualmente o Sr. R. e a Sra. T. vivem como um casal. Dormem juntos, trabalham, enfim dividem tudo. Ele sempre indo e vindo mas sempre ao lado dela. Ela sempre muito integra tentando manter a compostura.

Nunca brigaram, nunca discutiram, nunca se machucaram. Religiosamente ele avança sobre ela duas vezes ao dia. Um avanço consensual e esperado. Ela o recebe ansiosa e desfruta do pleno contato entre ambos.

Nas muitas voltas que esse mundo dá eles, como casal, conheceram a Sra. L. A atração foi instantânea. Mesmo morando muito longe eles sempre se viam. L. apenas olhava e influenciava. Seu prazer era ver. Seu prazer era saber que os outros dois sabiam. Seu prazer era sentir a intensidade dos dois aumentando.

Religiosamente, o Sr. R vai acariciar a sua amada, porem dessa vez ele é mais intenso, mais forte. T. sente que algo esta diferente. Ela sente os olhos da outra e sente o amado como um animal.

Ele mantem seu movimento de vai e vem, mais forte, vai e vem, mais rápido, vai e vem, mais profundo. Ela sente o choque entre seus corpos, sente o corpo do amado, maior, preenchendo-a de todas as formas. Ele sente a influencia do olhar da amante, sabe que ela deseja e continua. Sempre mais e mais fundo, esquece os barulhos, os cheiros, a visão e o paladar, tudo que resta é o tato produzido pelo toque entre seus corpos.

Ela de longe observa tudo e vê o amado penetrando mais e mais. Vê sua amada abrindo-se cada vez mais. Ela assiste tudo com o olho bem aberto, claro, iluminando o ato. Ela vê ele explodindo nela várias e várias vezes ate que tudo se acalma.

O dia nasce e tudo volta à calmaria. O palco continua armado esperando mais uma noite. Ela vendo e influenciado e os dois se entregando a luz da Lua, no ritmo do Rio e no seio da Terra.

Entardecer

As luzes apontavam para o centro do picadeiro, como setas indicando o caminho. Os sons banhavam o ambiente ao evocarem o rei. Todos os olhares, todas a atenções estavam voltadas unicamente para Sansão.

De que é feita a corrente?

Ele entrou com passos lentos e fortes, mostrando a todos suas poderosas patas. Sua juba fazia com que seu porte fosse magnífico aos olhos. Ele olhou os presentes e viu em seus olhos a mistura de encanto e medo. Ele apoderou-se de seus instintos, ergueu a cabeça e rugiu! Por um momento a luta entre medo em encanto foi vencida pelo medo e a plateia ficou apenas parada maravilhados com a presença tão forte e imponente de Sansão.

Um estalo e uma palavra de ordem… As patas de Sansão até então poderosas começam a tremer. Cabeça abaixada, agora olhando apenas para o chão. Ele para de rugir e percebe que não tem mais suas presas. Ele olha para as patas e percebe que não tem garrafas. Eles olham para ele e só o medo permanece nos olhos de Sansão.

Ele se recorda de quão forte e orgulhoso ele era, se recorda de brigar muito e de não aceitar ordens como qualquer um. Gritavam, ele rugia de volta. Batiam, ele atacava. Ele não se dobrava. Tudo que ele precisava era de seu orgulho, suas garras e presas.

Às presas foram as primeiras. Um dia o sedaram e retiraram todas. Ele acordou com um gosto estranho na boca. Com dores e percebeu que eles estavam começando a dobra-lo. As garras eram aparadas periodicamente, como um ritual para lembra-lo que ele não era nada. O orgulho se foi com o tempo e as humilhações sofridas como o abaixa e rola por conta de um pedaço de comida.

Ele estava completamente dobrado. Ele abaixou e esperou pela próxima ordem. Esperou como súdito. Esperou como menino. Esperou como leão castrado que era. Agora o obedecer garantia sua sobrevivência. Então ele miou.

Depois de ter ido ao circo ver o incrível Sansão, ele agora aproveita o dia de folga. Dia de relaxa e descansar depois de todos os dias de trabalho pesado. São sete da noite. Ele se ajoelha. Ele sabe que é mais forte, porem se ajoelha. Ele sabe que não precisa faze isso, mas algo enterrado tão profundamente na sua cabeça o manda fazer.

Ele abaixa a cabeça, de joelhos olha para o chão e de mãos atadas diz amém.