Agradecimento

Imaginem, no início da década de 90, em uma cidade do interior, de um estado que já é uma zona periférica do Brasil, professoras trabalhando em uma escola pública têm a sensibilidade de dar atenção a um garoto e viabilizar provas e documentações para fazer com que ele entrasse um ano antes na primeira série do fundamental, pois perceberam que ele perdia facilmente a atenção e começava a arrumar problemas.

Desses vinte anos nenhum foi feito pra mim E agora você quer que eu fique assim igual a você É mesmo, como vou crescer se nada cresce por aqui?

“Desses vinte anos nenhum foi feito pra mim / E agora você quer que eu fique assim igual a você / É mesmo, como vou crescer se nada cresce por aqui?” Mais do Mesmo.

Imaginem um garoto usar as férias para frequentar aulas particulares, pois ele, aos 10 anos, iria fazer um prova e concorrer com outras 300 crianças por vagas, naquela que era a escola pública boa da cidade.

Imaginem o garoto estudar, agora em uma escola privada, de 13h30min as 20h15min todos os dias, preparando-se pra outra prova, muito pior que aquela que ele fez 7 anos atrás. Tendo em média 3 professores para cada disciplina e, dessa vez, todo o material de apoio necessário.

Imaginem o garoto entrar na universidade e ter que viajar 2 horas para ir e 2 horas para voltar, todos os dias, de sua cidade até a capital… isso por 4 anos. Contando com o apoio financeiro do governo para as passagens e com o dinheiro dos pais para todo o resto, para que assim ele não precisasse se preocupar e pudesse se concentrar apenas nos estudos.

Imaginem esse garoto largando o curso técnico que fazia concomitantemente à graduação para poder fazer estágio e ter seu próprio dinheiro… ele não precisava… mas ao mesmo tempo ele “precisava”.

Imaginem o garoto conseguindo um orientador que, talvez por ainda ser bastante novo, entenda bem as diferenças, deixa o garoto livre. Deixa-o crescer como queria… para que talvez um dia ele floresça.

Imaginem a quantidade de professores que passaram pela vida desse garoto. Alguns ele encontra pelos bares da vida, outro ele já encontrou em posições invertidas de aluno e professor, outros ele nunca reencontrou… mas cada um tem uma parcela de culpa no que o garoto se tornou.

Imaginem o número de privilégios que esse garoto teve, pais com dinheiro no momento certo para pagar aula particular, para pagar escola privada, para pagar a alimentação…

Imaginem a quantidade de sorte que o garoto teve ao encontrar inúmeras pessoas que o ajudaram, desde as professoras quando ele tinha 6 anos… até os amigos que revisam seus textos e discutem suas ideias até hoje.

Imaginem se todos pudessem ter o mesmo que este garoto, se todos tivessem as oportunidades, se todos tivessem o tempo livre para estudar, se todos tivessem a melhor escola, se todos tivessem os melhores materiais, se todos tivessem a sorte de nascer em uma família que usava seus poucos recursos para a educação do filho, imaginem…

São tantas coisas para imaginar que, hoje, o garoto, apesar do esforço que fez… tem mais dívidas que méritos. Ele deve ao governo, àquela entidade que deveria redistribuir e prover a mesma oportunidade que ele teve, a todos. Ele deve a inúmeras pessoas que nunca verão seus filhos na universidade, mas que pagaram para esse garoto ter acesso.

Hoje, o título de doutor é, acima de tudo, um lembrete de que todo o conhecimento adquirido foi conseguido com suor e lágrimas de muitas pessoas e o mínimo que este doutor pode fazer agora é lutar para que outros possam ter acesso aos mesmos privilégios que tive.