Boto Paraense

Ele saiu da água como havia feito em outras noites. A roupa é sempre a mesma: camisa, calça e paletó brancos. Na cabeça o clássico chapéu. Enquanto ele deixava a água em direção a terra seu corpo era transformado, sua forma de boto dava lugar à forma humana e ele aproveitava os prazeres da terra.

Saudades até do que não vi.

Ele se aproxima de uma bela moça e usa seus encantos para seduzi-la. Eles se amam nus a luz da lua, sem nunca tirar o chapéu, que esconde em sua cabeça o elo inquebrável com o rio. Esta é a lembrança permanente de que ele deve voltar, que por mais que ele adore aqueles momentos na terra, ele realmente pertence ao rio, pois lá esta seu coração e que o buraco escondido pelo chapéu é justamente o pedaço que jamais deixou o rio.

Igualmente ao boto, o paraense troca sua pele e sua forma quando saiu de sua terra. Experimenta coisas novas, vive outros amores. No entanto, um pedaço dele sempre fica em casa. Ele sempre sente falta dos sabores, dos cheiros e da energia. Ele pode comer a melhor comida, mas seu paladar sempre vai sentir falta de algo; pode tomar a melhor bebida, mas a sede vai continuar; pode experimentar os cheiros mais intrigantes, porem o seu olfato sentira falta de algo.

O paraense é um eterno insatisfeito quando deixa sua terra para experimentar o mundo. Ele sempre terá um “buraco”, que diferentemente do boto não é na cabeça, o buraco é no peito.