Branca de Neve

Ela acordou e caminhou pela casa. Quase não reconheceu as paredes que foram os muros do seu castelo na infância. Viu fotos espalhadas. Lembrou das brincadeira, dos risos, dos amigos, do namorado.

Os pais a esperavam com o café à mesa. Eles parecem mais velhos, bem mais velhos. A mãe com os olhos inchados de tanto chorar. Será que brigaram novamente?

Apesar dos rostos cansados, os dois estão contentes. Felizes. Não, eles não brigaram. A mãe a olha de maneira carinhosa e lembra da menina que sujava as paredes da casa sonhando em ser pintora. O pai lembra da jovem cheia de energia que entrou na universidade, dos planos para o futuro.

Ela senta-se para comer. Pega uma colher e olha para a mão. Ela não reconhece aquela mão. Ela corre para o banheiro e olha no espelho. Também não reconhece o fantasma que esta a sua frente.

As lembranças começam a voltar de maneira dolorosa. Lembra de sair com os amigos. Uma dose, um “pega”, um “tiro”. Não fazia isso sempre, mas relaxar é bom. Imagens confusas – as drogas fazem efeito. Uma parada para outro “tiro”. Taquicardia. Paranoia. Gritos. Ela procura pelos amigos. Olha para a parada. São 2h30, o ônibus nunca atrasa. Gritos, freios, a dor, o sangue.

Foram meses no hospital. Para ela foi apenas uma noite. Para os pais, anos. Ela saiu quase ilesa. Mas todos os dias era aquela tortura matinal para lembrar o que aconteceu. Ela desce e encontra os pais e o namorado. Ela sorrir para ele e ele sorri de volta, quase chorando de tão emocionado. Ele sabe que hoje será um dos dias bons. Hoje ela lembrou dele.