Cantores do Porvir

Lembro das histórias contados no livros e filmes sobre os escritores de antigamente. Eles eram jovens, inconsequentes e muitas vezes alcoólatras. Normalmente, garotos de famílias nobres que abraçavam seus espíritos poéticos com tanta força que acabavam por sair do palco cedo demais.

Esses espíritos livres reuniam-se em clubes, porões, praças e bares, para juntos se embriagarem de poesia. Lá eles compartilhavam suas alegrias, tristezas e medos. Entrar naquelas cavernas era uma maneira de conhecer os outros e a si mesmo. Nessa época, a arte era vivida. A poesia nascia regada a vinho, risos e lágrimas. O sofrimento exposto por um era a inspiração do outro.

Hoje, os tempos mudaram. A poesia nasce triste e solitária. Algumas vezes ainda regada a vinho, porem isolada. Os novos poetas são cães presos. Cada um em sua caverna, sem conseguir se libertar das correntes.

Em seus contatos eles não partilham uma taça de vinho. Sequer compartilham o mesmo espaço, agora tudo é virtual. Muitas vezes, sequer o tempo é compartilhado. O clube de poetas virou “grupo” na Internet. Leitura entre amigos virou “post”. Risos e lágrimas de agradecimento viraram “curtir”.

Continuamos namorando as idéias, despido-as e sentindo-as. Escrevemos nossa maneira de ver a vida. Criamos e desconstruímos o mundo com nossas palavras. Mas no fim somos crianças querendo sair para brincar com os amigos no parque.

Hoje seguimos o exemplo do pássaro de Hermes que comia sua próprias asas para se manter dócil. A solidão coletiva impera.