Gatilho Emocional

Em um momento de perigo é liberada adrenalina no nosso corpo. O Sangue corre mais rápido, aumenta o fluxo de oxigênio no corpo, o cérebro fica mais apto a tomar decisões rápidas, as pupilas dilatam-se para melhorar a eficiência visual e o fígado chega a produzir mais glicose, gerando mais energia.

E se fosse vôce?

E se fosse você?

Toda a tensão daquele momento o fez recordar… Ele lembrou do dia que se conheceram. Um estava no local marcado esperando, enquanto o outro entrava com passos trêmulos, passos obrigados e todo o seu medo podia ser personificado em um único ser. Era uma luta entre David e Golias.

Ele não entendia a estratégia de seu algoz. Violência física não foi utilizada, sem privação de comida, com direito a horário para socializar, tudo parecia perfeito… mas no final ele ainda era obrigado a estar lá.

Ele lembrava do policial bom e do mal na hora do interrogatório no filmes. Ele pensa que essa é a técnica que estava sendo usada com ele… mas a mesma pessoa desempenha os dois papéis…algo deveria estar errado.

Os dias foram passando e a confiança foi sendo criada… Ele tentava resistir mas o lado bom do outro o cativava. No começo um gritava e o outro falava, depois um falava e o outro calava e no final os dois falavam, ou melhor conversavam.

Um lembrou de como o outro ser estava assustado no primeiro dia que o viu. De como ele demorou para se adaptar. Mas acima de tudo lembrou do rosto dele ao descobrir um mundo novo que sempre esteve ao seu redor mas que antes era indecifrável. Um ensinou o outro a andar… um aprendeu com o outro… e o medo se transformou em admiração.

As memórias são interrompidas. Um outro ordena de cima: Atira!!! De cima eles viam o dilema e se deliciavam com a cena executada pelos protagonistas antagônicos, ambos com o coração na mão e a alma nos olhos.

Lá em baixo, um está com a arma na mão e todas as lembranças na cabeça. Na mira o mesmo rosto familiar, porém agora mais envelhecido. Lembrou do primeiro dia quando foi obrigado a ir aquele local. Lembrou de cada letra que aprendeu. Lembrou que a mesma mão que agora segura a arma já segurou uma caneta e que foi aquele na sua mira que segurou sua mão para ensinar.

Risos, tiros e lagrimas…

Viver!!!

    Eles se encontraram após muitos anos de separação. A vida tinha proporcionado o reencontro. Olhares e abraços. Ritos de uma amizade longa. Já se conheciam há anos. Cada um sabia a historia permanente do outro. Já as histórias que são escritas enquanto vivos, ainda era um segredo não revelado.

    Cada um contou dos lugares que estiveram, das pessoas que conheceram, dos cheiros que provavam e principalmente dos sentimentos que sentiram.

    A primeira vez foi difícil para ambos. Eles se sentiram solitários e como se tivessem sido abandonados após um ótimo relacionamento. Lembraram do medo do desconhecido e não entendiam que para viver era preciso deixar ir e se deixar levar.

    Um lembrou de uma noite que passou com uma família. Todos o receberam de braços abertos. Falou da maravilhosa noite a beira da lareira onde ele era o centro das atenções e o motivo por ter a família toda reunida.

    Outro lembrou de uma semana que passou em uma ilha paradisíaca com um grupo de jovens. Gente querendo se divertir, compartilhar e amar. Lembrou do luau onde inebriados pela atmosfera todos ecoavam seus versos e viviam como se não houvesse amanhã.

    Eles lembraram das viagens ruins que fizeram e mostraram as cicatrizes tanto físicas quanto mentais. Infelizmente eles haviam conhecido pessoas ruins na estrada, mas isso nunca os fez parar.

   Acima de todas as lembranças uma se destacava. Em uma de suas aventuras ele acabou conhecendo um novo amigo. No entanto, esse amigo passou por tempos difíceis e não suportava mais viver. Ele contou como passou semanas tentando convencê-lo a não desistir. Contou como o carregou em seus ombros e o trouxe de volta. Também falou da emoção da despedida e o sorriso de amizade de ambos.

   Após contarem suas novas historias eles respiraram orgulhosos um do outro por saber que o outro continuava a explorar o mundo. Eles olharam ao redor e viram o sebo. Se deitaram e esperaram pacientemente o próximo comprador de livros.

 

 

Escolhas

A noite cai trazendo a escuridão e o medo. Tudo é trancado. Cada um se recolhe à sua cela. Do lado de fora cercas elétricas, câmeras de segurança e muros. Ninguém entra, ninguém sai. Naquele ambiente ele vislumbra o último raio de sol. Junto com ele se vai sua liberdade. Sendo obrigado a ficar atrás das grades, das câmeras e dos muros.

Até hoje não entende o que aconteceu com sua vida. Desde pequeno sua mãe o aconselhou a não se meter com más companhias e a estudar para ser alguém na vida. Assim ele fez, mas algo errado aconteceu no caminho.

Ele sempre frequentou escolas públicas, sempre foi o melhor da turma, mas sempre andou com todos. Na escola nunca escolheu amizades elas simplesmente aconteciam. A escola era sua obrigação, mas o futebol com esses amigos era sua diversão.

Ele cresceu e foi para a universidade. O grupo de amigos mudaram. Curso de direito. Amigos mais ricos. Lugares diferentes. Mas, os sábados ainda era para o futebol com os velhos amigos.

A cada sábado os times mudavam. Um amigo preso, um no hospital, um morto. Ele lembrava de tudo isso ao olhar para as grades que o cercavam.

Terminou o curso e começou a trabalhar. Ganhou dinheiro, família, casa nova. Agora ele anda com seguranças. Sua casa é vigiada o tempo todo. Seu carro é blindado. Ele tem os recursos necessários para dar tudo que sempre quis à seus filhos.

Hoje é sábado. Ele esta em sua casa. As cercas elétricas o rodeiam e as câmeras de segurança o vigiam. Relaxando a beira da piscina, se lembra do futebol com os amigos. Agora ele tem tudo, mão ao mesmo tempo a saudade do futebol simples com os amigos o atormenta.

Ue

Ele acordou naquela manhã e saiu. Seu nome era Ue. Aquela manhã era a manhã de seu batismo. Não o batismo religioso, mas o dia em que Ue recebeu seu nome. Mais ainda, aquele era o dia do seu nascimento.

Ele olhou o mundo pela primeira vez. Uma cidade desconhecida. Uma rua nunca vista. Mas não entendia como tudo aquilo parecia tão familiar. Não entendia como já nasceu com lembranças e como já nasceu grande.

Ele não se importou com as dúvidas e aproveitou sua vida. Construiu uma amizade. Seu amigo não queria saber do passado apenas se importava com ele. Em compartilhar momentos com ele. Isso era suficiente. Então decidiu fazer o mesmo. Saíram juntos e conheceram aquelas ruas novamente. Criaram histórias. Criaram o mundo.

Nunca conheceram os pais um do outro. Nunca precisaram disso. Eles tinham os passeios de bicicleta, a escola e os jogos. As primeiras experiências. Os primeiros medos. Tudo foi enfrentado sempre juntos. Amigos inseparáveis

Cresceram juntos. Desafiando os perigos. Aprenderam a ler juntos e viajaram por terras distantes. A noite quando o medo os dominava tinham a mão um do outro para segurar. Quando as tristeza os dominava tinham ombros para chorar.

Um dia Ue acordou e seu amigo não estava lá. Olhou em todas as direções. Gritou. Chorou. Tentou se mover mas estava preso. Trancado. Traído pela única pessoa que amou. Ele se agachou, sozinho em um canto escuro, e lamentou o dia em que a imaginação de seu amigo o criou.