Singularidade

Ela olha para ele e já não o reconhece mais. Ela desabafa, já cansada da extrema racionalidade e ceticismo dele:

_ Amor, eu não aguento mais. Você está se tornando um chato, sem crenças e que não pode ver poesia em nada. Você quer regular sentimento e emoções. Quer racionalizar o ódio e o amor. Quer desmembrar, organizar e estuda cada nuance do sentimento humano sem realmente senti-lo.

Apenas momentos no decorrer do tempo?

Apenas momentos no decorrer do tempo?

Já com lágrimas nos olhos mas ainda com uma gota de esperança, a mulher pede para que ele fale algo emotivo, algo real, algo que a toque. Pede que ele use sua razão de forma a sentir e fazê-la sentir algo. Ou melhor, pede para que seja menos razão e mais emoção. Pede para que o companheiro a abrace com palavras bonitas e não com fórmulas matemáticas.

Ele a fita com tenro carinho. Seus olhos ainda brilhavam de admiração, logo responde:

_ Entre as muitas teorias atuais da física uma é o Big Bang, também conhecida como a Grande Expansão. Nele as nossas dimensões começaram, inclusive o tempo, tão cruel e generoso. O mesmo que não nos permite voltar para reparar um erro e ao mesmo tempo nos permite viver o presente (nome interessante para o hoje). Esta dimensão, o tempo,  se comporta como um vetor (dentro do limite de nosso entendimento sobre o tempo em si) movendo-se em uma direção de forma implacável, segundo após segundo.

O rapaz a lembrou que o tempo é um recurso muito precioso, pois ainda não podemos criá-lo. Lembrou também que a vida é outro bem finito, e contra nossos desejos se esvai numa fração de tempo para o cosmos, um recurso que devemos aproveitar no decorrer do tempo… e finalizou: _ Eu escolhi compartilhar com você as coisas mais preciosas que tenho: Meu tempo e minha vida.

Ela ainda emocionada e com os olhos marejados observa sua face. De seus lábios lentamente saí murmúrios. Mesmo naquela situação havia algo que ela ainda não podia negar. Tudo bem, aquilo foi lindo mas era preciso, necessário em sua mente, existir algo para iniciar o Big Bang, e ao menos para si, ele não podia negar a existência de um criador para tudo aquilo.

E eles se separaram.

Amantes à moda antiga

Eles se conheceram em uma festa. Foi uma questão de fogo, depois a conversa e por fim a dançar. Mãos, braços, pernas e respiração em uníssono. Eles sabiam que aquele não era o lugar dele, muito menos o dela, mas enquanto giravam e descobriam um ao outro aquele passou a ser o lugar eternamente deles.

Essa beleza é relativa?

Essa beleza é relativa?

Uma, duas, três… incontáveis danças. A noite continuava em sua embriaguez de corpos e almas. Quando os corpos paravam as almas continuavam a sonhar, a tocarem-se e a se descobrirem.

A mudança de ambiente era inevitável, assim como o amanhecer. A luz que batia nos olhos dela era de um brilho diferente, não, ela que era diferente e transformava as coisas ao redor.

Eles finalmente se deitam e iniciam outra dança. Eles marcam o corpo um do outro. Eles machucam um ou outro. Eles sentem um ao outro.

Uma noite se transformou em dia e um dia se transformou em outro. Eles haviam visto o nascer do sol e agora viam sua passagem novamente. Vento, areia, água e lembranças.

Um passeio pelas diferenças para encontrar as semelhanças, sejam na língua, nos pensamentos, na solidão e no egoísmo. Tudo era um encaixe. Tudo uma desculpa para outra conversa ou outro beijo.

O momento da despedida chega. Eles haviam desenhado uma história, curta em tempo mas grande em sentimentos. Eles marcaram um ou outro uma ultima vez e se separaram. O pincel para um lado e a tela para o outro.

Paixões

Era uma cerca que os separava. Dois montantes dispostos lado a lado, porem de forma antagônica, o bem de um era o mal do outro. O desejo de um era a falência do outro e acima de tudo o amor de um era maior que o do outro. A ascensão de um foi comemorada usando elementos de desprezo pelo outro e este se ressentiu e partiu para agressão. Racionalidade deixada de lado, a paixão os movia e a violência começou.

Eu SOU o correto seu burro!!!

Eu SOU o correto seu burro!!!

Uma outra hora ambos falavam de amor, de paz e de compreensão. Mas em um determinado momento as diferenças apareceram e de repente elas viraram maiores que as semelhanças. As verdades passaram para apenas um lado, mas qual? Deus estava vendo aquilo e sabia qual povo era o certo, mas qual? Juntos sobre o mesmo teto, iguais compartilham e se exaltam mostrando suas verdades e criticando os outros que não querem ou não veem. O amor que antes única agora faz com quem cada um aceite fazer o que antes era impensável. Eles se entregam a paixão e defendem com unhas e dentes suas crenças. Afinal, ele esta do meu lado.

Uma tela e um teclado os separava. Cada um com uma opinião diferente. Cada um em um lugar diferente. Cada um com uma classe diferente. Cada um com uma vida diferente. Ainda assim cada um era um brasileiro e com os mesmo direitos e deveres. Cada um escolheu um lado e quando a logica e a racionalidade terminaram o embate de puro ódio começou. Os pensamentos de um brasil melhor ficaram de lado enquanto que as enxurradas de palavras agredindo o outro devido suas escolhas burras. A unidade é esquecida e a paixão pelos ideais cria um vazio que só é preenchido com a desqualificação do outro.

Agora de maneira mais clara eles estão de lados opostos. Cada um defendendo seu pais, suas ideias, suas crenças suas paixões. Ordens foram dadas e serão cumpridas. Os tiros são dados sem hesitar, sem questionar, sem avaliar. Eles seguem as ordens dos superiores e caminham no fronte de batalha pois do outro lado esta um inimigo e não um ser humano.

Interessante como a paixão por coisas tão distintas e ainda assim iguais geram reações tão próximas. Não importa se é futebol, religião, politica ou guerra. A paixão de cada um supera a racionalidade e o preço é pago por todos.

Será que no final apenas as crianças são seres racionais?

Voyeurismo

Não se sabe quem começou. Quem conheceu quem primeiro. Quem se relacionou primeiro. O que se sabe é que os três sempre tiveram um relacionamento.

O prazer de olhar e ser olhado

Atualmente o Sr. R. e a Sra. T. vivem como um casal. Dormem juntos, trabalham, enfim dividem tudo. Ele sempre indo e vindo mas sempre ao lado dela. Ela sempre muito integra tentando manter a compostura.

Nunca brigaram, nunca discutiram, nunca se machucaram. Religiosamente ele avança sobre ela duas vezes ao dia. Um avanço consensual e esperado. Ela o recebe ansiosa e desfruta do pleno contato entre ambos.

Nas muitas voltas que esse mundo dá eles, como casal, conheceram a Sra. L. A atração foi instantânea. Mesmo morando muito longe eles sempre se viam. L. apenas olhava e influenciava. Seu prazer era ver. Seu prazer era saber que os outros dois sabiam. Seu prazer era sentir a intensidade dos dois aumentando.

Religiosamente, o Sr. R vai acariciar a sua amada, porem dessa vez ele é mais intenso, mais forte. T. sente que algo esta diferente. Ela sente os olhos da outra e sente o amado como um animal.

Ele mantem seu movimento de vai e vem, mais forte, vai e vem, mais rápido, vai e vem, mais profundo. Ela sente o choque entre seus corpos, sente o corpo do amado, maior, preenchendo-a de todas as formas. Ele sente a influencia do olhar da amante, sabe que ela deseja e continua. Sempre mais e mais fundo, esquece os barulhos, os cheiros, a visão e o paladar, tudo que resta é o tato produzido pelo toque entre seus corpos.

Ela de longe observa tudo e vê o amado penetrando mais e mais. Vê sua amada abrindo-se cada vez mais. Ela assiste tudo com o olho bem aberto, claro, iluminando o ato. Ela vê ele explodindo nela várias e várias vezes ate que tudo se acalma.

O dia nasce e tudo volta à calmaria. O palco continua armado esperando mais uma noite. Ela vendo e influenciado e os dois se entregando a luz da Lua, no ritmo do Rio e no seio da Terra.

Always-Always Land

He woke up one day and decided that he didn’t want grow up, that he always wanted to be a kid, playing, running and having fun. He decided that he would be Peter Pan in this world full of traditional concepts, that he would never get married, or better, that he could not get married. He said that he didn’t want to have children, that he did not want responsibilities.

                 The dream come true

Life should be an endless joke with its comings and goings. He should always free to dream, always free to do what he wanted, without concerns about tomorrow. Sleeping where and when he wanted, to feel what he wanted. Nobody could harness him or force him to conform to their tedious standards.

After searching for so long, he found his Tinker Bell. He found his fairy that would deliver him to his dreams. Not to Never-Never Land, but to Always-Always Land. Now this was not a kid’s dream, because his fairy was real and she made his dreams into reality. They could fly together to plazas, forests, beaches and the world. She taught him that growing up was not bad. He would sometimes have to do things that he did not like, but he shouldn’t stop dreaming and believing in her.

The time passed, the kid grew up with the fairy at his side. The fairy thought that he was care of her, but actually, she was taking care of him, keeping the flame alive, keeping his mind healthy, keeping him happy.

It is morning, the old boy has to work. He says goodbye to his fairy with a candy kiss. She look into his eyes, she still can see the dreaming boy, and she says:

_ Goodbye daddy.

Hoje e Amanhã

    Ele já nasceu filho. Antes de pensar. Antes de saber. Antes de escolher. O mundo já o havia colocado nesta posição. Aquela seria a sua benção e a sua sina e ele teria uma vida inteira para lidar com ela.

Pai e Filha

    No nascimento, aos gritos, ele aprendeu a essência de ser filho. Ele galgou sua liberdade machucando sua mãe. E apesar de triste aquela cena se repetiria durante toda a sua vida. A cada pedaço ganhado no mundo era uma lágrima tirada dela.

    O menino cresceu e se tornou um homem. Ele aprendeu a ser responsável. De fato ele aprendeu que todas as suas escolhas teriam uma resposta do mundo. Que algumas vezes ele poderia não gostar, mas teria que lidar com elas.

    Quando o menino aprendeu a ser homem ele reaprendeu a ser filho. Olhou para seus pais e imaginou as responsabilidades que eles carregavam e assim aprendeu a ser mais tolerante com eles.

     O homem se tornou pai. Tudo que ele já pensava saber sobre responsabilidade não passava de história de criança. Agora ele aprendeu a se dar. Aprendeu a realmente amar e sofrer.

     O filho muda ao sentir a aflição que seus pais sentem. Ele finalmente compreende o que é abrir mão do hoje pelo amanhã. Sentado ele observa sua mãe e sua filha juntas e seus papeis de pai e filho se misturam.

    Uma bela mulher passa. Ele a observa. Agora é o homem solteiro que esta no comando. Ele Olha, sente o cheiro e o olhar dela. Mas sua mãe o olha e ele volta a ser um garotinho. Sua filha o olha e rouba toda a sua atenção. Que mulher pode competir com ela?

    Ele a abraça novamente no papel de hoje. Sabendo que ela é o seu amanhã.

Presente

    Eles se conheceram da maneira mais inesperada possível. Olhares, sorrisos, caras e bocas. Tudo foi muito rápido, de desconhecidos a namorados em menos de uma hora. Um verdadeiro conto de fadas entre a princesa e o ogro.

    Após uma semana juntos já é aniversário dela. Ele tem que escolher um presente. Mas como escolher algo pessoal, algo especial se eles só se conhecem há uma semana?

    Ele pensou em perfumes. Na mesma hora lembrou do cheiro dela, daquela fragrância doce e daquela química perfeita. Ele sabia que nenhum perfume era melhor que o cheiro dela. Pensou em flores, toda mulher gosta de flores, mas ela não é uma mulher qualquer, ela é especial e merece um presente como ela.

    Roupas, bombons, sapatos. Nada parecia encaixar. Nada parecia bom. Ele era um ogro que não gostava de dar presentes, ele não gostava de estar apaixonado e agora estava quebrando a cabeça atrás do presente ideal.

    Quando ele já estava a ponto de desistir de tudo, ele colocou seus sentimentos em um papel.  Criou o presente mais caro e mais barato. Ele entregou o papel com um cartão e uma dedicatória: “Receba um pedaço de minha alma nua”.

Coração de Pedra

Ele sempre a acompanhou. Quando ela ainda era criança ele gostava de vê-la brincar, gostava do seu interesse pelas artes, da sua curiosidade sobre tudo. Mas durante a adolescência ele deixou de vê-la. Talvez os hormônios, as escolhas, os primeiros amores. Ele não sabia, mas foram anos sem vê-la. Anos naquela solidão rodeado de pessoas.

Era uma terça feira, um dia comum, pessoas passando, crianças gritando, um verdadeiro caos. Mas em meio a tudo isso duas luzes o encontraram. Neste momento o mundo se resumia àquelas luzes. Como uma criança amedrontada diante do desconhecido ele tentava daquelas luzes tão fortes e encantadoras que chegavam a serem aterrorizantes.

Desnorteado e sem forças ele se entregou e olhou profundamente para elas. Dentro daqueles olhos ele encontrou a mesma menina e o brilho dos seus olhos o envolveu como um abraço. Naquele momento ele sabia que estava tudo perdido. Ele era dela.

Todos os dias eles se encontravam. Ela o olhava com uma ternura que o fazia quase chorar. Ele a amava, mas não conseguir se declarar. Anos se passaram e eles continuaram olhando-se ternamente sem mas nunca trocarem uma palavra. Nunca uma carícia. Todo o amor era representado nos olhos.

Foi em uma terça feira que ele a reencontrou e foi em uma terça-feira que ele morreu. Ele a esperava para alimentar o vicio daqueles olhos. Ela entrou e o olhou da mesma forma. No entanto, ela não estava só. Ele a olhava e outro falava com ela. Ele a olhava e outro a tocava. Ele a olhava e outro a beijava.

Os mesmo olhos que sempre a viram, tentaram chorar mais não conseguiram. A mesma boca que nunca pode falar para ela que a amava, também não pode gritar agora. O mesmo coração que sempre a amou agora amaldiçoava o artista que o esculpiu.

A Dança

Ele levantou a espada e olhou seu oponente. Do outro lado era uma mulher que empunhava a espada. Ela era mais fraca e menor que ele, porem com aquele tipo de espada nada disso importava.

Ele olhou para a espada reluzente, afiada e sedenta por sangue. No entanto, quando viu seu reflexo, viu seu rosto pálido e o medo enraizado em seus olhos, cravado fundo em sua alma. Além do medo que era compartilhado por ambos, a sede os dominava.

Eles começaram a dança. Uma espada toca a outra, cada ataque é repelido, cada golpe é desviado. Aquela não era a primeira vez que eles se enfrentavam. Cada um já aprendeu a ler o outro com o tempo. Os golpes eram previsíveis, eles eram quase um espelho. A sincronia era tão boa que fariam um belo casal, se não fossem aquelas espadas.

Ele usa seu alcance maior e consegue ganhar terreno. Ela esta visivelmente cansada, pressa em um canto, quase indefesa. Ele se prepara para o golpe final. Entretanto, seus olhos se cruzam e neste momento ele enxerga a pequena menina que se esconde dentro daquela armadura.

Foi um segundo, o tempo de um piscar de olhos. Quando ele hesitou ao ver a menina. Ela desferiu um golpe certeiro e firme no coração do oponente. O sangue banhou a espada e as forças dele falharam. Ela viu as lágrimas em seus olhos e percebeu que ele se conteve. Ela o segura, retira a espada e com um beijo cura a ferida.

Esta noite a luta terminou na cama, com dois animais se amando, ardendo de desejo. Eles se olham e não entendem como ainda usam as espadas. Ela dorme no seu ombro. O coração esta curado, mas um pedaço da espada sempre fica lá dentro, crescendo e consumindo, esperando pelo próximo golpe.

 

Rei

Ele despertou naquela manha cinzenta, seus olhos vislumbraram até o limite dos seus domínios. Lembrou dos bons momentos que tivera naquela terra e de como foi feliz nesta vida. Onde pela manhã seus criados traziam-lhe café em seus aposentos. Eles pareciam felizes em servir a um senhor tão nobre.

Ele morava em seu castelo, com aposentos privados. Os criados moravam em outra residência dentro dos seus domínios. Quando precisava de um banho os criados vinham banhá-lo. Quando queria se divertir, os seus súditos o alegravam. Algumas vezes ele saia de sua propriedade, mas sempre acompanhado de alguns criados. Seu mundo era os seus domínios. Lá ele era o rei, o centro das atenções. Todos trabalhavam e viviam para ele.

Ele recordava do nascimento de alguns de seus criados, apenas dos mais novos. Não lembrava da própria família, de quem herdou o reino. Antes mesmo de ter nascido alguns dos criados já estava lá, sempre fiéis ao seu senhor.

Quando ele adoeceu os criados ficaram tristes, trouxeram médicos, remédios, orações. Os criados mais velhos eram fortes e escondiam as lagrimas, mas as crianças não conseguiam suportar vê-lo dessa forma. Elas choravam.

Aquela manha cinzenta foi a ultima que viu. Ele olhou com carinho para os seus criados. Ele não tinha herdeiros e tudo que era seu passaria para seus súditos. Ele estava feliz com isso, eles foram tudo para ele.

Seu enterro foi no quintal da casa, próximo de onde ele vivera. Com uma serie de homenagens, lagrimas, sorrisos e lembranças. As crianças choravam e se despediram de seu amado animal de estimação.