Sonho de Criança

Aquela era a brincadeira que eles mais gostavam, algumas vezes esperavam o dia todo por aquele momento. Ele como pai lia os contos de fadas e ela como filha escutava atenta a cada doce palavra pronunciada.

A arte de sonhar

A arte de sonhar

A história escolhida naquela noite foi a Bela e a Fera. Ele se posicionou com o livro nas mãos, aquele era o momento dele, sentiu os dedos tocarem as páginas, sentiu os olhos dela olharem vibrantes para ele e começou a leitura. A cada palavra pronunciada o faz de contas dentro do faz de contas os envolvia.

Ela prestavam muita atenção, mas sempre ficava com muitas dúvidas… Por que não é o Belo e a Fera? Será que um homem belo seria capaz de amar uma mulher forte? Por que o filho não se sacrificou pelo pai? Por que precisava ser a bela e não as outras filhas? Tem que ser bonita para ser a personagem principal?

Estas perguntas permaneciam no ar como tantas outras que ela se perguntava. Por mais que ela adorasse os contos de fadas ela tinha crescido no mundo real e algumas coisas não faziam sentido para ela…. Por que a família não era feliz se tinham uma casa e comida? Por que era preciso ter tanto dinheiro? Por que uma rosa valia mais que uma vida?

A leitura terminou e ele cumpriu seu papel naquela noite. Levo ela até a cama e a colocou para dormir. Deu um beijo de boa noite e saiu sem fazer barulho para a cama ao lado e imaginou quantos criam o mesmo faz de conta que eles.

Amanhã ela seria a mãe lendo e ele o menino… Ele seria colocado na cama e por um momento não estaria no orfanato.

Jardim

Eles olhavam para o jardim e apreciavam suas cores e formas enquanto colhiam sementes. Ela dava as ordens e ele obedecia. Ela olhava uma e dizia: “Pega aquela papai.” e ele ia. Esta era a ordem mais doce que ele jamais recebera.

                    “Somos poeira de estrelas.”{Carl Sagan}

Ela olhou para as flores e lembrou-se das fadas que cuidavam dos jardins, de como elas faziam o jardim ficar lindo e perguntou para o pai a que horas as fadas cuidavam do jardim, pois ela nunca as via.

O pai disse para a filha que aquele jardim específico não era cuidado por fadas, mas que o cosmos todo fazia com que o jardim fosse tão belo. Ela não entende direito e pergunta quem regava as plantinhas, para elas não morrerem de sede. O pai diz que as plantinhas vão crescendo aos poucos e a raiz vai mais fundo na terra procurando novos locais de onde pegar água.

Ela ainda não satisfeita pergunta quem colocava o perfume nelas. O pai diz que a planta cria seu perfume para fazer com que os animais venham até ela e a ajudem a criar novas plantinhas em outros lugares.

Ela começa a entender, mas ainda queria saber quem dava comida pra elas então. A resposta veio mostrando a relação do sol e solo com a planta e todo o trabalho necessário para que ela cresça forte e bonita. Nada era dado a ela, a planta tinha que gastar energia para conseguir energia.

Ela ainda meio triste por não existirem fadas naquele jardim vai dormir e sonha com as plantas trabalhando duro o dia todo. Acorda, corre e vai para o jardim. Fica por um tempo apreciando o jardim, suas cores, sons, cheiros e formas.

Ela pega com folha da planta com o maior cuidado. Ela nunca entendia porque falavam para ela não machucar os outros, sempre falavam que era errado, mas nunca explicavam como aquilo era errado. Mas ao olhar para planta e lembrar todo o trabalho duro que a planta teve pra chegar ate ali ela entendeu o cuidado que se deve ter com uma vida.

Ela sentiu os perfumes, pensou o quanto ela gosta do cheiro e lembrou-se da relação entre o cheiro e a possibilidade de criar novas plantinhas em outros lugares e entendeu por que aquele cheiro era bom pra ela.

Os sons que ela ouvia e as cores do jardim eram produto da interação de uma serie de elementos pequenos no jardim, cada um fazendo sua parte e ajudando um ao outro, pois assim todos podiam progredir, as fadas não precisavam fazer nada ali, cada um era a fada do outro.

Ela deu um sorriso e ficou feliz por poder apreciar as duas belezas do jardim. A beleza aparente e a mais profunda que explicava como o jardim crescia e o papel de cada elemento.

Ela levantou os olhos e olhou para o mundo, baixou novamente e olhou para o jardim. Levantou mais uma vez os olhos e viu o mundo e deu um sorriso.

Ela começava a ver a beleza do mundo sem as fadas.

Cavalos e Ratos

Sempre, nas histórias dos contos de fadas, o personagem principal é mostrado e todas as transformações acontecem ao seu redor. No entanto, outros personagens estão nessas histórias e aquele conto também pertence a eles.

Vitruviano???

Lembro-me da Cinderela, abatida e sofrida, que teve seu desejo realizado indo ao baile em uma carruagem feita de abóboras e com sapatinho de cristal para encontrar o príncipe encantado. Pois bem, essa história não é sobre ela e sim sobre quatro ratinhos e um cavalo. Estes, coadjuvantes na história da Cinderela, convertidos em personagens principais em seu próprio conto de fadas.

No momento que a fada realizou a mágica, os quatro ratos foram transformados em cavalos que iriam levar a carruagem. Os quatro animaizinhos, sempre descritos como fracos e pequenos, se escondendo e acima de tudo sendo odiados pelos humanos, naquela noite viraram animais grandes, bonitos e foram admirados.

O cavalo, sempre acostumado a carregar, puxar, apanhar e obedecer, foi transformado no chofer e pela primeira vez pode guiar. Pode escolher o rumo. Seus olhos podiam se embrenhar em todas as direções e escolher o melhor caminho, não apenas para si, mas também para os quatro ratinhos transformados em cavalos. Agora era ele quem mandava, mas sua vida já o havia ensinado a humildade, logo, ele mandava consciente da força e fraqueza dos outros quatros.

Esta noite foi mágica para mais de um ser. Diria que as mudanças dos animais foram mais importantes que a mudança de Cinderela, pois a mudança de perspectiva nos traz novos horizontes e novos desafios.

Afinal, quanto vale uma noite de sonhos?

 

 

Always-Always Land

He woke up one day and decided that he didn’t want grow up, that he always wanted to be a kid, playing, running and having fun. He decided that he would be Peter Pan in this world full of traditional concepts, that he would never get married, or better, that he could not get married. He said that he didn’t want to have children, that he did not want responsibilities.

                 The dream come true

Life should be an endless joke with its comings and goings. He should always free to dream, always free to do what he wanted, without concerns about tomorrow. Sleeping where and when he wanted, to feel what he wanted. Nobody could harness him or force him to conform to their tedious standards.

After searching for so long, he found his Tinker Bell. He found his fairy that would deliver him to his dreams. Not to Never-Never Land, but to Always-Always Land. Now this was not a kid’s dream, because his fairy was real and she made his dreams into reality. They could fly together to plazas, forests, beaches and the world. She taught him that growing up was not bad. He would sometimes have to do things that he did not like, but he shouldn’t stop dreaming and believing in her.

The time passed, the kid grew up with the fairy at his side. The fairy thought that he was care of her, but actually, she was taking care of him, keeping the flame alive, keeping his mind healthy, keeping him happy.

It is morning, the old boy has to work. He says goodbye to his fairy with a candy kiss. She look into his eyes, she still can see the dreaming boy, and she says:

_ Goodbye daddy.

Branca de Neve

Ela acordou e caminhou pela casa. Quase não reconheceu as paredes que foram os muros do seu castelo na infância. Viu fotos espalhadas. Lembrou das brincadeira, dos risos, dos amigos, do namorado.

Os pais a esperavam com o café à mesa. Eles parecem mais velhos, bem mais velhos. A mãe com os olhos inchados de tanto chorar. Será que brigaram novamente?

Apesar dos rostos cansados, os dois estão contentes. Felizes. Não, eles não brigaram. A mãe a olha de maneira carinhosa e lembra da menina que sujava as paredes da casa sonhando em ser pintora. O pai lembra da jovem cheia de energia que entrou na universidade, dos planos para o futuro.

Ela senta-se para comer. Pega uma colher e olha para a mão. Ela não reconhece aquela mão. Ela corre para o banheiro e olha no espelho. Também não reconhece o fantasma que esta a sua frente.

As lembranças começam a voltar de maneira dolorosa. Lembra de sair com os amigos. Uma dose, um “pega”, um “tiro”. Não fazia isso sempre, mas relaxar é bom. Imagens confusas – as drogas fazem efeito. Uma parada para outro “tiro”. Taquicardia. Paranoia. Gritos. Ela procura pelos amigos. Olha para a parada. São 2h30, o ônibus nunca atrasa. Gritos, freios, a dor, o sangue.

Foram meses no hospital. Para ela foi apenas uma noite. Para os pais, anos. Ela saiu quase ilesa. Mas todos os dias era aquela tortura matinal para lembrar o que aconteceu. Ela desce e encontra os pais e o namorado. Ela sorrir para ele e ele sorri de volta, quase chorando de tão emocionado. Ele sabe que hoje será um dos dias bons. Hoje ela lembrou dele.

Três Porquinhos

Todo conto de fadas tem seu final feliz. Mas eles, na verdade, nunca terminam. Suas histórias continuam em ciclos como todas as outras. Nascendo, crescendo, reproduzindo-se, morrendo e renascendo.

Eles não eram mais os mesmo porquinhos bobos do primeiro conto. Suas historias se passam anos após a primeira; logo, eles cresceram. Não apenas em idade, mas em força e coragem. O lobo também não era mais o mesmo. O perigo era eminente, o inimigo conhecido e a lição já fora aprendida. A história havia lhes ensinado e não cometeriam os mesmo erros.

O primeiro porquinho, como bom engenheiro que é, construiu uma casa com os melhores aparatos de segurança: vigilância 24×7, portas com identificação biométrica, janelas a prova de bala, paredes antitérmicas, tudo controlado por um servidor com conexão criptografada. Tudo estava como o planejado até que o lobo conseguiu alguns códigos de acesso e pôs fim ao suíno.

O segundo porquinho, ao saber do acontecido, acionou o sindicado dos porquinhos. Eles fizeram uma assembléia geral e entraram com um pedido de uma ordem de restrição contra o lobo. Vários dos porquinhos envolvidos fizeram lobby junto a alguns juízes e conseguiram a ordem. Misteriosamente, alguns mudaram de opinião, gerando seu cancelamento. Resultado: mais um leitão a pururuca servido.

Enquanto isso, o terceiro porquinho, que trabalha como relações publicas, dá um “curtir” nas recentes peripécias realizadas pelo seu novo melhor amigo. O Lobo mau.