Viver!!!

    Eles se encontraram após muitos anos de separação. A vida tinha proporcionado o reencontro. Olhares e abraços. Ritos de uma amizade longa. Já se conheciam há anos. Cada um sabia a historia permanente do outro. Já as histórias que são escritas enquanto vivos, ainda era um segredo não revelado.

    Cada um contou dos lugares que estiveram, das pessoas que conheceram, dos cheiros que provavam e principalmente dos sentimentos que sentiram.

    A primeira vez foi difícil para ambos. Eles se sentiram solitários e como se tivessem sido abandonados após um ótimo relacionamento. Lembraram do medo do desconhecido e não entendiam que para viver era preciso deixar ir e se deixar levar.

    Um lembrou de uma noite que passou com uma família. Todos o receberam de braços abertos. Falou da maravilhosa noite a beira da lareira onde ele era o centro das atenções e o motivo por ter a família toda reunida.

    Outro lembrou de uma semana que passou em uma ilha paradisíaca com um grupo de jovens. Gente querendo se divertir, compartilhar e amar. Lembrou do luau onde inebriados pela atmosfera todos ecoavam seus versos e viviam como se não houvesse amanhã.

    Eles lembraram das viagens ruins que fizeram e mostraram as cicatrizes tanto físicas quanto mentais. Infelizmente eles haviam conhecido pessoas ruins na estrada, mas isso nunca os fez parar.

   Acima de todas as lembranças uma se destacava. Em uma de suas aventuras ele acabou conhecendo um novo amigo. No entanto, esse amigo passou por tempos difíceis e não suportava mais viver. Ele contou como passou semanas tentando convencê-lo a não desistir. Contou como o carregou em seus ombros e o trouxe de volta. Também falou da emoção da despedida e o sorriso de amizade de ambos.

   Após contarem suas novas historias eles respiraram orgulhosos um do outro por saber que o outro continuava a explorar o mundo. Eles olharam ao redor e viram o sebo. Se deitaram e esperaram pacientemente o próximo comprador de livros.

 

 

Cantores do Porvir

Lembro das histórias contados no livros e filmes sobre os escritores de antigamente. Eles eram jovens, inconsequentes e muitas vezes alcoólatras. Normalmente, garotos de famílias nobres que abraçavam seus espíritos poéticos com tanta força que acabavam por sair do palco cedo demais.

Esses espíritos livres reuniam-se em clubes, porões, praças e bares, para juntos se embriagarem de poesia. Lá eles compartilhavam suas alegrias, tristezas e medos. Entrar naquelas cavernas era uma maneira de conhecer os outros e a si mesmo. Nessa época, a arte era vivida. A poesia nascia regada a vinho, risos e lágrimas. O sofrimento exposto por um era a inspiração do outro.

Hoje, os tempos mudaram. A poesia nasce triste e solitária. Algumas vezes ainda regada a vinho, porem isolada. Os novos poetas são cães presos. Cada um em sua caverna, sem conseguir se libertar das correntes.

Em seus contatos eles não partilham uma taça de vinho. Sequer compartilham o mesmo espaço, agora tudo é virtual. Muitas vezes, sequer o tempo é compartilhado. O clube de poetas virou “grupo” na Internet. Leitura entre amigos virou “post”. Risos e lágrimas de agradecimento viraram “curtir”.

Continuamos namorando as idéias, despido-as e sentindo-as. Escrevemos nossa maneira de ver a vida. Criamos e desconstruímos o mundo com nossas palavras. Mas no fim somos crianças querendo sair para brincar com os amigos no parque.

Hoje seguimos o exemplo do pássaro de Hermes que comia sua próprias asas para se manter dócil. A solidão coletiva impera.

Bicho Homem

O que fazer quando a vontade se esvai? Quando a força falha? Quando a crença em si é perdida?

Nunca teve problemas com as dificuldades. Para ele elas eram apenas um obstáculo. Apenas um aprendizado. Quando a vida lhe machucava ele batia de volta. Com mais força. Com mais vontade. Cada problema era uma maneira de melhorar.

Ele continuou. Chuva. Sol. Só o seu sonho importava. Cair era inevitável. Levantar era necessário. Cada vez mais consciente de suas habilidades e de suas limitações, ou melhor, das coisas que ele tinha que melhorar. Não conhecia limites. Essa palavra não existia para ele.

Não se importava com a maneira que as pessoas o olhavam. Era dono de si. Nasceu lutando. Brigou com o mundo desde o primeiro momento. Criança forte, cresceu apanhado e revidando. Só olhava para trás para manter sua obstinação. A vida foi dura, o tratou como bicho. Ele aceitou a carapuça e se vestiu de bicho. Criou garras, prezas, destreza e coragem.

Quando nasceu foi tratado como um verme. Jogado em um canto, entregue ao acaso. Aprendeu neste momento que nada viria de graça. Então fez tudo que podia. Gritou.

Na infância foi um rato. Se escondendo, sujo, comendo restos, indo de um canto para o outro. Sem uma casa, sem proteção. Seus dentes e mão eram suas armas. Seu abrigo era embaixo dos viadutos e seu restaurante a lata de lixo.

Sua adolescência lhe revelou um novo mundo. Aprendeu a roubar, virou gato. Se escondendo, sendo ágio, esperto. As dores, tanto físicas quando psicológicas, o ensinaram a estar sempre um passo a frente de todos.

Cresceu machucado, forte e feroz. Se tornou um leão. Agora mandava nos outros gatos. Era seu bando, sua família. Ele era o rei naquela selva urbana. Nunca disse ‘por favor’ ou ‘obrigado’. Nunca recebeu uma gentileza. O mais forte sobrevive. Foi o que a vida lhe ensinou.

Ele sentiu o gosto do ferro. Primeiro da lamina, depois do sangue. O mundo ficou vermelho. Nunca viu o mar e agora se afogava no seu próprio sangue. O vermelho se tornou negro e ele não pode ver o nascimento do outro leão.

Têm fogo?

Fim de festa, ultimas despedidas, mais uma vez minha cabeça me prega peças, me prometo não beber mais daquela maneira. Incrível que sei que estou mentindo.

Saiu do ambiente, tenho que ir pra casa, são 4 da manha, o horário perfeito pra ter ideias estúpidas, descido ir andando para casa. Cabelo despenteado, roupa suada, pouco dinheiro na carteira, um cigarro na orelha. Tiro a camisa e começo a caminhada. Vejo as pessoas ainda nos bares bebendo, entro em ruas pouco movimentadas, um fio de sobriedade passa pela minha cabeça: O que estou fazendo aqui?

Caminho longo, perigos possíveis, já vejo pessoas esperando o ônibus, bem que eu poderia pegar um. Não, vou manter minha caminhada, chegar até meu castelo com minhas próprias pernas, enfrentando o perigo, as adversidades e principalmente o bom senso.

Após 30 minutos de caminhada já estou perto de casa, entro na praça que é meu último obstáculo, uma praça linda, arvore, luzes, história. Começo a andar por aquelas calçadas que já haviam visto tantas coisas, tantas vidas, tantos anos e penso como somos efêmeros.

Continuo a caminhada, meio da praça, olho a frente, três caras veem na minha direção, que droga penso eu, justo agora, depois de nadar tanto vou morrer na praia. Eles se aproximam, todos vestidos de preto, me pergunto o que fariam aquela hora na praça, na verdade eu já sei, só não queria aceitar. Perigo eminente pego minha camisa e coloco no outro ombro, tiro o cabelo do rosto e pego o cigarro que estava na minha orelha. Vou fazer minha aposta.

Eles continuam em minha direção, três metros de distancia, começo a falar com o cigarro na mão:

_ Irmão, têm fogo?

Eles me olham meio assustados, dão um passo para traz e balbuciam meio temerosos:

_ Agente nããão tem nada.

Eles saiam quase que correndo com medo que os assaltasse. Saiu rindo, com o cigarro na orelha novamente e me perguntando: Quando foi que nos tornamos tão covardes?