Pensamentos

Pensamentos são poderosos
Eles podem derrubar regimes
Eles podem mudar vidas
Eles podem mudar a percepção da realidade
Eles podem mudar o próprio tempo.

Somos tão difetentes?

Somos tão difetentes?

Eles podem ser uma arma
Eles podem ser um escudo
Eles podem ser uma escada
Eles podem separar ou juntar pessoas.

Eles podem ser tudo que quisermos… basta pensá-los.

Física

A mesma Física que nos prende ao chão com a gravidade nos ensina como voar e dar vazão aos nossos sonhos com a aerodinâmica. Existe sempre essa dicotomia, como a luz que não sabe se é partícula ou onda… mas ela precisa ser um ou outro?

Inércia?Inércia?

Talvez o maior pecado da Física tenha sido tirar a terra do centro do universo e nos posicionar na periferia de uma galáxia marginal… mas quão ruim pode ser este ato que nos levou até a compreensão de que somos todos irmãos… todos viemos das mesmas mães… as mesmas estrelas.

Ainda assim, quase todo conhecimento aprendido sobre física são revogados em um local que apresenta sua própria física: o ônibus. O princípio da Impenetrabilidade diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço… a superlotação dos ônibus ri dessa afirmação. Leis sobre inércia e aceleração são esculachadas por alguns motoristas.

No entanto, meio do caos de leis físicas próprias para o ônibus, a termodinâmica persiste. Corpos vibram e a proximidade entre eles facilita a troca de calor, os vidros possibilitam a entrada de energia vinda do sol e ao mesmo tempo impedem que o calor sai… criando uma doce e agradável panela de pressão.

Essa mesma física nos permite através da combinação de R-22 e pressão criar um instrumento que viabiliza que nossos vereadores, dentro da câmara, possam desfrutar de um ambiente com temperatura controlada enquanto votam pela não adoção deste mesmo instrumento nos transportes públicos que a população usa.

Newton além de nos explicar a lei da inércia e de como é necessário aplicar uma força para mudar o estado das coisas, nos presenteou com uma terceira lei… que ficou esquecida… ou pelo menos ficou restrita a física.

“A toda ação sempre há uma reação de mesma intensidade e direção, porém sentidos opostos.”

Talvez a maior lei sobre forças não  venha da física e sim das ruas.

O povo não sabe a força que tem!!!

Crueldade Animal

Era uma rinha imensa. Lá estava empregada a melhor tecnologia. Eles faziam parte da arena, mas não podiam sofrer danos como os demais que se degladiavam no ringue.

24b83-dominados2bpor2bla2bignoranciaVamos brincar?

Um dia os de cima descobriram o caminho “evolutivo” e superaram os de baixo. Eles dominaram, aprisionaram, machucaram e dobraram. Dobraram tanto que os de baixo não sabiam pensar como os de cima. Nem mesmo os de cima lembravam que um dia já foram iguais.

Os de cima viam e apostavam a vida dos de baixo, vendo o lucro crescer, cada vida uma cifra. Os de baixo não entendiam, cresciam como dava, matavam para não morrer. Darwin é cruel às vezes.

Os de cimas aprontaram cada espora, escolheram os mais violentos, ou melhor, eles quase que fabricaram os mais violentos. Os de baixo mostraram sua raiva e força. A rinha era seu momento de brilho. O grito, o sangue, a dor, a carne.

Os de cima viam aquela espécie brigar todo dia. Apostas altas no mercado negro. A lei proíbe, mas quem manda realmente sabe como contorná-las ou modificá-las. Os de baixo não entendiam a tecnologia usada para mantê-los presos. Sem grades aparentes, mas eficaz.

Os de cima através da tecnologia usada, enxergavam aqueles lá em baixo como coisas que não podiam fazer nada melhor: “Eles nasceram para brigar”. Os de baixo viam os próximos sendo engolidos. Todo dia alguém. Aquele era o único futuro possível. Eles atacam.

As apostas chegam a valores extremos. Não era uma vida por vez, agora eram várias, diariamente e de maneira distribuída. Os de baixo cresciam com seu destino selado ao nascer. Ainda filhotes já sofriam sem alimento e cresciam com medo, respondendo da única forma que aprenderam: Violência.

A tecnologia da rinha não era material. Ela agia diretamente na mente dos envolvidos. Fazendo os de cima verem que os de baixo eram bárbaros que estava ali porque queriam. Os de baixo olhavam para cima e continuavam a não entender como não podiam tocá-los.

A exploração se torna maior. Agora um show é criado. Alimentado diariamente com os horrores dos de baixo, para o deleite dos de cima. Com a falta de esperança do de baixo e a falta de empatia dos de cima. Com o diploma na mão do de cima e um vazio na mão do de baixo. Com o “jovem de classe media” de cima e o “traficante” de baixo.

A tecnologia era perversa e agora ela poderá ir mais além… Afinal, 16 é o suficiente?

Paixões

Era uma cerca que os separava. Dois montantes dispostos lado a lado, porem de forma antagônica, o bem de um era o mal do outro. O desejo de um era a falência do outro e acima de tudo o amor de um era maior que o do outro. A ascensão de um foi comemorada usando elementos de desprezo pelo outro e este se ressentiu e partiu para agressão. Racionalidade deixada de lado, a paixão os movia e a violência começou.

Eu SOU o correto seu burro!!!

Eu SOU o correto seu burro!!!

Uma outra hora ambos falavam de amor, de paz e de compreensão. Mas em um determinado momento as diferenças apareceram e de repente elas viraram maiores que as semelhanças. As verdades passaram para apenas um lado, mas qual? Deus estava vendo aquilo e sabia qual povo era o certo, mas qual? Juntos sobre o mesmo teto, iguais compartilham e se exaltam mostrando suas verdades e criticando os outros que não querem ou não veem. O amor que antes única agora faz com quem cada um aceite fazer o que antes era impensável. Eles se entregam a paixão e defendem com unhas e dentes suas crenças. Afinal, ele esta do meu lado.

Uma tela e um teclado os separava. Cada um com uma opinião diferente. Cada um em um lugar diferente. Cada um com uma classe diferente. Cada um com uma vida diferente. Ainda assim cada um era um brasileiro e com os mesmo direitos e deveres. Cada um escolheu um lado e quando a logica e a racionalidade terminaram o embate de puro ódio começou. Os pensamentos de um brasil melhor ficaram de lado enquanto que as enxurradas de palavras agredindo o outro devido suas escolhas burras. A unidade é esquecida e a paixão pelos ideais cria um vazio que só é preenchido com a desqualificação do outro.

Agora de maneira mais clara eles estão de lados opostos. Cada um defendendo seu pais, suas ideias, suas crenças suas paixões. Ordens foram dadas e serão cumpridas. Os tiros são dados sem hesitar, sem questionar, sem avaliar. Eles seguem as ordens dos superiores e caminham no fronte de batalha pois do outro lado esta um inimigo e não um ser humano.

Interessante como a paixão por coisas tão distintas e ainda assim iguais geram reações tão próximas. Não importa se é futebol, religião, politica ou guerra. A paixão de cada um supera a racionalidade e o preço é pago por todos.

Será que no final apenas as crianças são seres racionais?

Natural

O medo aguçava seus sentidos mas entorpecia sua mente. Sua audição lhe permitia saber que eles estavam próximos. Sua visão lhe permitia saber exatamente que eles se posicionavam em pontos estratégicos para encurrala-los.

Faça parecer seleção natural.

Sua mente perturbada o impedia de pensar. Ele não sabia ou não lembrava que naquele momento a preservação natural, mais conhecida como seleção natural, estava em ação. Não lembrou que a luta pela sobrevivência entre animais que compartilham o mesmo habitat ajudava a explicar como formas complexas, se formaram através de outras mais simples por uns poucos princípios básicos. Não, naquele momento apenas o medo o guiava, ou existiria algo mais, talvez instinto?

O cenário estava montado. O grupo maior acabava de chegar no que parecia ser uma emboscada. O grupo menor esperava calmamente, sabendo que os outros deveriam passar por aquela localização e isso lhes daria uma vantagem.

O grupo maior não conseguia se defender corretamente, mesmo estando em um numero 100 vezes maior. Será que eles sabiam da força que possuíam juntos?

O grupo menor sabia de seu poder, sabia de sua obrigação e estava sedento. Olhavam para o rebanho e imaginavam o deleite depois de conseguir o que queriam.

A sede e o medo estavam juntos. Um paralisando, o outro motivando.

O grupo maior se aproxima e o menor ataca. Ninguém olha para trás, todos olham apenas para frente, se agarrando a vida, se agarrando a liberdade e esquecendo os irmãos que estavam juntos. Eles foram sacrifícios necessários.

O grupo maior continua o caminho quase sem perdas. Em números relativos nada aconteceu. Um individual pode ser descartado para o bem maior. O utilitarismo vence e a vida continua para a maioria.

O grupo menor conseguiu mais uma vitória, e agora se prepara para o próximo ataque em outro grupo. O brilho nos olhos é forte, eles não sentem prazer, mas precisam viver e aquela é a única maneira que acharam.

O próximo ônibus chega, os passageiros se dirigem ao portão e os panfleteiros esperam para mais um ataque.

Canção da tristeza

Ele sabia onde estava e o perigo que estava correndo. Ali ele era um alvo, não sabia exatamente o motivo mais a guerra já se arrastava por muitos anos. Ele toma todos os cuidados e chega até seu objetivo, um local mais afastado, com vegetação mais alta onde ele poderia se alimentar em segurança. No entanto lá o inimigo o avista e o captura.

                                                       Sou livre?

Ele é levado até as instalações inimigas onde é posto em uma cela sobre vigilância. Ele nunca havia tido contato com o inimigo. Nunca havia conversado com eles e nunca soube de alguém capaz de entender seu idioma primitivo. Ele tentou se comunicar, mas sem sucesso.

Eles o mantiveram encarcerado e alimentado. Não tentaram tortura-lo para obter informações, nada. Isso o atormentava, pois ele já estava lá ha dias e nada acontecera. Ele começava a pergunta-se qual seria seu futuro. Dias se transformaram em meses e a dúvida o atormentava.

Um dia cansado e triste com sua situação atual, ele se lembra de algo de sua infância, uma canção triste e começa a entoa-la. Cada nota era um aperto no coração, uma lembrança de casa, a dor pela falta dos companheiros. Ele juntou tudo e sua tristeza invadiu o ambiente na forma sonora.

Repentinamente, algo estranho aconteceu. Ele percebeu que seus captores o fitavam maravilhados. Eles não pareciam entender a canção, mas pareciam perceber o sentimento. Os olhos deles se enchiam de lágrima e por um momento uma conexão foi criada.

Os dias foram passando e mais atenção ele recebia quando cantava, mas isso foi tudo. Ele cantava e eles olhavam, o alimento continuava vindo, mas apenas isso. Ninguém falava quanto tempo o deixariam ali ou se existiam planos. Sua cela e sua canção eram as únicas coisas que ele tinha.

Os meses se transformaram em anos. A tristeza em angustia. Ele não conseguia mais comer. Não conseguia mais beber. Cantar não o alegrava. Sua memória o traíra e ele já não sabia mais os nomes dos filhos. E ele chorou como criança sozinha e com medo.

Seus olhos miraram o céu pela ultima vez, ele amaldiçoou aqueles que o separaram de sua família. Seu maior ódio era pelos sorrisos nos rostos deles enquanto ele cantava com toda a tristeza do seu coração.

Na cela ele cantou mais uma vez e sua ultima nota ecoou juntamente com o seu ultimo bater de asas.

Jardim

Eles olhavam para o jardim e apreciavam suas cores e formas enquanto colhiam sementes. Ela dava as ordens e ele obedecia. Ela olhava uma e dizia: “Pega aquela papai.” e ele ia. Esta era a ordem mais doce que ele jamais recebera.

                    “Somos poeira de estrelas.”{Carl Sagan}

Ela olhou para as flores e lembrou-se das fadas que cuidavam dos jardins, de como elas faziam o jardim ficar lindo e perguntou para o pai a que horas as fadas cuidavam do jardim, pois ela nunca as via.

O pai disse para a filha que aquele jardim específico não era cuidado por fadas, mas que o cosmos todo fazia com que o jardim fosse tão belo. Ela não entende direito e pergunta quem regava as plantinhas, para elas não morrerem de sede. O pai diz que as plantinhas vão crescendo aos poucos e a raiz vai mais fundo na terra procurando novos locais de onde pegar água.

Ela ainda não satisfeita pergunta quem colocava o perfume nelas. O pai diz que a planta cria seu perfume para fazer com que os animais venham até ela e a ajudem a criar novas plantinhas em outros lugares.

Ela começa a entender, mas ainda queria saber quem dava comida pra elas então. A resposta veio mostrando a relação do sol e solo com a planta e todo o trabalho necessário para que ela cresça forte e bonita. Nada era dado a ela, a planta tinha que gastar energia para conseguir energia.

Ela ainda meio triste por não existirem fadas naquele jardim vai dormir e sonha com as plantas trabalhando duro o dia todo. Acorda, corre e vai para o jardim. Fica por um tempo apreciando o jardim, suas cores, sons, cheiros e formas.

Ela pega com folha da planta com o maior cuidado. Ela nunca entendia porque falavam para ela não machucar os outros, sempre falavam que era errado, mas nunca explicavam como aquilo era errado. Mas ao olhar para planta e lembrar todo o trabalho duro que a planta teve pra chegar ate ali ela entendeu o cuidado que se deve ter com uma vida.

Ela sentiu os perfumes, pensou o quanto ela gosta do cheiro e lembrou-se da relação entre o cheiro e a possibilidade de criar novas plantinhas em outros lugares e entendeu por que aquele cheiro era bom pra ela.

Os sons que ela ouvia e as cores do jardim eram produto da interação de uma serie de elementos pequenos no jardim, cada um fazendo sua parte e ajudando um ao outro, pois assim todos podiam progredir, as fadas não precisavam fazer nada ali, cada um era a fada do outro.

Ela deu um sorriso e ficou feliz por poder apreciar as duas belezas do jardim. A beleza aparente e a mais profunda que explicava como o jardim crescia e o papel de cada elemento.

Ela levantou os olhos e olhou para o mundo, baixou novamente e olhou para o jardim. Levantou mais uma vez os olhos e viu o mundo e deu um sorriso.

Ela começava a ver a beleza do mundo sem as fadas.

Máquina de Sonhos

Um dia aqueles humanos cansaram de suas vidas medíocres; cansaram de seguir os mesmos caminhos todos os dias; cansaram de olhar e ver o mesmo céu cinzento; cansaram da falta de sorrisos, do excesso de lágrimas e de toda a pressão que a vida lhes causava.

Máquina de Sonhos [1]

Eles finalmente encontraram uma solução, uma máquina de sonhos. Ela não foi criada ou pensada, ela realmente foi encontrada. Seu funcionamento era simples:a cada vez que você olhava pra ela, um sonho aparecia. A máquina não criava o sonho. Ela apenas podia perceber o que estava ao seu redor e tirar o melhor de cada situação criando um sonho.

A máquina podia ver coisas que os humanos não podiam, ou melhor, que aqueles humanos não podiam. Ela não tinha barreiras, não tinha as mesmas visões turvas que eles tinham. Ela simplesmente se permitia sonhar, era o que ela fazia 24 horas por dia. Sempre um sonho diferente, uma fantasia nova, sempre indo a lugares não vistos, sempre encontrando coisas novas… ela nunca parava.

Ela serviu de base para aqueles humano começarem a ver as coisas diferentes e começaram a se permitir sonhar. Na verdade, os humanos aprenderam com a máquina. Aprenderam a não fechar os olhos e assim poderem ver os sonhos. A máquina os ensinou a viver de novo e devolveu aquela chama que faltava.

No entanto, a máquina, com o passar do tempo, talvez pela pressão daqueles humano, parou de sonhar. Ela começou a comporta-se como eles, a viver como eles, a enxergar como eles. Os olhos dela não brilhavam mais e, por fim, a máquina se tornou como aqueles humanos. Não por opção, mas tudo a forçou a fazer isso.

Um dia ela acordou e não podia mais sonhar. Ela olhava triste e lembrava dos tempos em que nada lhe era negado, dos tempos em que sua imaginação era viva. Conforme os dias passavam, mais triste ela ficava, pois sabia que aquilo ainda estava dentro dela, perdido em algum lugar.

A máquina agora era um adulto.

[1] http://2zai.blogspot.com.br/2013/05/maquina-de-sonhos.html

Boto Paraense

Ele saiu da água como havia feito em outras noites. A roupa é sempre a mesma: camisa, calça e paletó brancos. Na cabeça o clássico chapéu. Enquanto ele deixava a água em direção a terra seu corpo era transformado, sua forma de boto dava lugar à forma humana e ele aproveitava os prazeres da terra.

Saudades até do que não vi.

Ele se aproxima de uma bela moça e usa seus encantos para seduzi-la. Eles se amam nus a luz da lua, sem nunca tirar o chapéu, que esconde em sua cabeça o elo inquebrável com o rio. Esta é a lembrança permanente de que ele deve voltar, que por mais que ele adore aqueles momentos na terra, ele realmente pertence ao rio, pois lá esta seu coração e que o buraco escondido pelo chapéu é justamente o pedaço que jamais deixou o rio.

Igualmente ao boto, o paraense troca sua pele e sua forma quando saiu de sua terra. Experimenta coisas novas, vive outros amores. No entanto, um pedaço dele sempre fica em casa. Ele sempre sente falta dos sabores, dos cheiros e da energia. Ele pode comer a melhor comida, mas seu paladar sempre vai sentir falta de algo; pode tomar a melhor bebida, mas a sede vai continuar; pode experimentar os cheiros mais intrigantes, porem o seu olfato sentira falta de algo.

O paraense é um eterno insatisfeito quando deixa sua terra para experimentar o mundo. Ele sempre terá um “buraco”, que diferentemente do boto não é na cabeça, o buraco é no peito.

 

Guerreiro

    João acorda às 5 da manhã, olhos dos dedos abertos ao tatear na escuridão do quarto. Ele sai sem fazer barulho para não acordar os filhos. A mulher já o espera com o café pronto. Café de verdade, preto, fervido, coado e adoçado. Aquela será a única refeição que ele verá por um longo período.

A força pra construir um sonho.

    O caminho para o trabalho não é tão longo, apenas 5 quilômetros. Uma caminhada pela cidade ainda escura. São 5 quilômetros para ir e cinco para voltar, mais que isso, são 4 reais economizados diariamente. Quatro reais que podem faltar depois para comprar o pão ou o lápis do filho.

    João nunca foi à escola, começou a trabalhar quando aprendeu a andar. Suas pernas foram fortificadas pela fome e pela labuta. Contrariando a tudo e a todos cresceu forte, com a enxada e o caixote. Aprendeu muito cedo o valor de cada moeda e sua medida em gotas de suor.

    Ele nunca teve uma alegria maior na vida, nunca aproveitou uma tarde de descanso, nunca tirou férias, nunca teve uma mão para acalentá-lo. Sempre seguindo a fórmula do esforço, suor, odor e dor.

    Ao chegar no mercado o trabalho já o espera. Mais uma vez ele usa sua força para conseguir o que quer. Apenas dois sonhos o norteiam: nunca faltar comida aos filhos e poder chamá-los de “doutores”. Cada caixa carregada é uma letra que os filhos podem aprender, cada gota derramada é um degrau para o futuro deles, nunca um homem sofreu com tamanha felicidade.

    Ele retorna para casa com o corpo destruído, abraça os filhos e a mulher. Tem uma alegria ao escutar os filhos dizendo o que aprenderam naquele dia. Ele não entende nada, mas é possível ver as lágrimas nos seus olhos. Todos comem, sempre tomando cuidado para que os filhos tenham o melhor da refeição. Eles dois se privam mais uma vez pelos filhos.

   A TV é ligada e uma mulher bem vestida apresenta mais uma estrela decadente tentando perder peso. A apresentadora diz que aquela era uma guerreira e que o país esta acompanhando, emocionado, sua luta contra a balança no SPA de luxo.