Hoje e Amanhã

    Ele já nasceu filho. Antes de pensar. Antes de saber. Antes de escolher. O mundo já o havia colocado nesta posição. Aquela seria a sua benção e a sua sina e ele teria uma vida inteira para lidar com ela.

Pai e Filha

    No nascimento, aos gritos, ele aprendeu a essência de ser filho. Ele galgou sua liberdade machucando sua mãe. E apesar de triste aquela cena se repetiria durante toda a sua vida. A cada pedaço ganhado no mundo era uma lágrima tirada dela.

    O menino cresceu e se tornou um homem. Ele aprendeu a ser responsável. De fato ele aprendeu que todas as suas escolhas teriam uma resposta do mundo. Que algumas vezes ele poderia não gostar, mas teria que lidar com elas.

    Quando o menino aprendeu a ser homem ele reaprendeu a ser filho. Olhou para seus pais e imaginou as responsabilidades que eles carregavam e assim aprendeu a ser mais tolerante com eles.

     O homem se tornou pai. Tudo que ele já pensava saber sobre responsabilidade não passava de história de criança. Agora ele aprendeu a se dar. Aprendeu a realmente amar e sofrer.

     O filho muda ao sentir a aflição que seus pais sentem. Ele finalmente compreende o que é abrir mão do hoje pelo amanhã. Sentado ele observa sua mãe e sua filha juntas e seus papeis de pai e filho se misturam.

    Uma bela mulher passa. Ele a observa. Agora é o homem solteiro que esta no comando. Ele Olha, sente o cheiro e o olhar dela. Mas sua mãe o olha e ele volta a ser um garotinho. Sua filha o olha e rouba toda a sua atenção. Que mulher pode competir com ela?

    Ele a abraça novamente no papel de hoje. Sabendo que ela é o seu amanhã.

Empatia

Era uma tarde como outra qualquer. Pegou um cigarro e acendeu. Puxa. Solta. Respira. Ele fumava embaixo de uma arvore. Solitariamente ele apreciava a beleza da natureza, o vento o sol, o mundo.

Subitamente ele sentiu uma dor entre os dedos. Olhou para baixo e viu que uma formiga o mordeu. Inclinação para baixo, um dedo estendido, uma pressão, um amasso e o incomodo estava morto. Olhou e viu o corpo inerte. Um ato automático e uma vida se foi.

Ele parou por um momento e pensou: “Por que a matei?” A resposta veio rápida: “Ela me machucou!!!”, pensou novamente e isso não parecia uma justificativa para tirar uma vida. Pensou nas muitas pessoas que o machucaram por tantos anos, de maneira pior que essa formiga, e que ele nunca havia matado.

Após muita reflexão percebeu que matou a formiga porque ele tinha o poder para fazê-lo. Nesse momento pensou nas pessoas que possuem poder sobre outras. Sentiu medo e vergonha de si mesmo. Olhou mais uma vez para o corpo e percebeu que não importava o poder que ele tinha ele não podia trazê-la de volta.

Acordou assustado. Um sonho, foi apenas um sonho. Passos podia ser ouvidos lá fora. Abriu os olhos, levantou suas pequenas patas e se juntou as outras formigas.

Cantores do Porvir

Lembro das histórias contados no livros e filmes sobre os escritores de antigamente. Eles eram jovens, inconsequentes e muitas vezes alcoólatras. Normalmente, garotos de famílias nobres que abraçavam seus espíritos poéticos com tanta força que acabavam por sair do palco cedo demais.

Esses espíritos livres reuniam-se em clubes, porões, praças e bares, para juntos se embriagarem de poesia. Lá eles compartilhavam suas alegrias, tristezas e medos. Entrar naquelas cavernas era uma maneira de conhecer os outros e a si mesmo. Nessa época, a arte era vivida. A poesia nascia regada a vinho, risos e lágrimas. O sofrimento exposto por um era a inspiração do outro.

Hoje, os tempos mudaram. A poesia nasce triste e solitária. Algumas vezes ainda regada a vinho, porem isolada. Os novos poetas são cães presos. Cada um em sua caverna, sem conseguir se libertar das correntes.

Em seus contatos eles não partilham uma taça de vinho. Sequer compartilham o mesmo espaço, agora tudo é virtual. Muitas vezes, sequer o tempo é compartilhado. O clube de poetas virou “grupo” na Internet. Leitura entre amigos virou “post”. Risos e lágrimas de agradecimento viraram “curtir”.

Continuamos namorando as idéias, despido-as e sentindo-as. Escrevemos nossa maneira de ver a vida. Criamos e desconstruímos o mundo com nossas palavras. Mas no fim somos crianças querendo sair para brincar com os amigos no parque.

Hoje seguimos o exemplo do pássaro de Hermes que comia sua próprias asas para se manter dócil. A solidão coletiva impera.

Consquista

A primeira coisa que ocorre é aquela troca de olhares. Meio sem querer, de maneira despretensiosa. Quando os olhos se encontram o tempo pára por alguns segundos. Neste momento o universo se resume a dois olhos.

Depois do encanto inicial pela beleza, vem o arrebatamento pela essência. Você não a conhece realmente, mas naquele momento, crê que viu sua alma. Nua, se expondo, sem pudor. Você  à deseja.

Começa o período  da conquista. Um jogo de palavras, gestos, caras e bocas. Ela se esconde, brinca, dança, ri e revela-se. Você a vê como ela é. Sem os requintes, sem a maquilagem, sem a sombra. Você a vê crua e ama o que vê.

A dança continua. Ela já sabe que você a quer. Ela dança de maneira mais sensual. Chamando, cativando, encantando, quase machucando. Ela esta na sua forma mais atraente, sua forma bruta e natural. Suas formas estão claras aos seus olhos. Seus altos e baixos. O doce e o amargo. Tudo nela lhe embriaga.

Você já a despiu, mas ela ainda consegue fugir, desaparecer como fumaça. Mas ela volta. Rindo. Ainda mais provocante. Ela é tudo que você pensou. Um passo, uma mão, uma volta, um braço, um rosto e um beijo. Ela é sua.

A loucura passa. A Conquista foi realizada. Ela é mais uma para você agora. Mas você ainda olha pra ela de maneira especial. Sabe que ainda não terminou, sabe que precisa ir mais adiante. E o próximo passo será o mais difícil. De nada vale a conquista se ela não se tornar real.

Cabeça imóvel. Olhar perdido no horizonte. Tudo que vê é uma folha em branco e um desafio. Agora é a hora final. A hora de colocar a idéia que foi conquistada no papel.

Rei

Ele despertou naquela manha cinzenta, seus olhos vislumbraram até o limite dos seus domínios. Lembrou dos bons momentos que tivera naquela terra e de como foi feliz nesta vida. Onde pela manhã seus criados traziam-lhe café em seus aposentos. Eles pareciam felizes em servir a um senhor tão nobre.

Ele morava em seu castelo, com aposentos privados. Os criados moravam em outra residência dentro dos seus domínios. Quando precisava de um banho os criados vinham banhá-lo. Quando queria se divertir, os seus súditos o alegravam. Algumas vezes ele saia de sua propriedade, mas sempre acompanhado de alguns criados. Seu mundo era os seus domínios. Lá ele era o rei, o centro das atenções. Todos trabalhavam e viviam para ele.

Ele recordava do nascimento de alguns de seus criados, apenas dos mais novos. Não lembrava da própria família, de quem herdou o reino. Antes mesmo de ter nascido alguns dos criados já estava lá, sempre fiéis ao seu senhor.

Quando ele adoeceu os criados ficaram tristes, trouxeram médicos, remédios, orações. Os criados mais velhos eram fortes e escondiam as lagrimas, mas as crianças não conseguiam suportar vê-lo dessa forma. Elas choravam.

Aquela manha cinzenta foi a ultima que viu. Ele olhou com carinho para os seus criados. Ele não tinha herdeiros e tudo que era seu passaria para seus súditos. Ele estava feliz com isso, eles foram tudo para ele.

Seu enterro foi no quintal da casa, próximo de onde ele vivera. Com uma serie de homenagens, lagrimas, sorrisos e lembranças. As crianças choravam e se despediram de seu amado animal de estimação.

Três Porquinhos

Todo conto de fadas tem seu final feliz. Mas eles, na verdade, nunca terminam. Suas histórias continuam em ciclos como todas as outras. Nascendo, crescendo, reproduzindo-se, morrendo e renascendo.

Eles não eram mais os mesmo porquinhos bobos do primeiro conto. Suas historias se passam anos após a primeira; logo, eles cresceram. Não apenas em idade, mas em força e coragem. O lobo também não era mais o mesmo. O perigo era eminente, o inimigo conhecido e a lição já fora aprendida. A história havia lhes ensinado e não cometeriam os mesmo erros.

O primeiro porquinho, como bom engenheiro que é, construiu uma casa com os melhores aparatos de segurança: vigilância 24×7, portas com identificação biométrica, janelas a prova de bala, paredes antitérmicas, tudo controlado por um servidor com conexão criptografada. Tudo estava como o planejado até que o lobo conseguiu alguns códigos de acesso e pôs fim ao suíno.

O segundo porquinho, ao saber do acontecido, acionou o sindicado dos porquinhos. Eles fizeram uma assembléia geral e entraram com um pedido de uma ordem de restrição contra o lobo. Vários dos porquinhos envolvidos fizeram lobby junto a alguns juízes e conseguiram a ordem. Misteriosamente, alguns mudaram de opinião, gerando seu cancelamento. Resultado: mais um leitão a pururuca servido.

Enquanto isso, o terceiro porquinho, que trabalha como relações publicas, dá um “curtir” nas recentes peripécias realizadas pelo seu novo melhor amigo. O Lobo mau.

Herói

Quando pensamos em heróis lembramos-nos de quando éramos crianças, em um mundo em que heróis tinham poderes. Hoje todos falam de heróis ate mesmo alguns “jornalistas”. Como já bem dizia Raulzito: “… todo mundo tem que reclamar.”. Eles gritam alto, para que todos vejam, mas não fazem realmente nada.

Quem quer se render primeiro?

Não quero falar de profissões de heróis, como os professores. Esse qualquer idiota que saiba ler/escrever deve perceber a sua real importância. O engraçado é que justamente as pessoas que não sabem ler são as que possuem um maior respeito a esta arte.

Lembro- me da época em que vivia no interior, éramos crianças, com um mundo em descoberta e morar numa cidade pequena é uma benção nessa época.

Era um grupo de garotos indo em direção a um igarapé, talvez apenas para ver a natureza e desfrutar de coisas simples como andar na mata. No entanto encarar o igarapé era uma aventura e garotos amam aventuras.

Um dos meninos entrou na água e começou a se afogar, seu irmão mais velho ao ver isso pensou rapidamente e lançou sua camisa para que o irmão mais novo à segurasse e pudesse ser resgatado. No entanto, o irmão mais velho esqueceu-se de segurar a sua ponta da camisa. Camisa e homem ao mar, sem mais opções o irmão mais velho pulou na água para o resgate, alcançando facilmente seu irmão, e afogaram-se juntos, pois, somente naquele momento o mesmo lembrou que não sabia nadar. Um dos garotos mais velhos entrou na água e salvou os dois que estavam na parte rasa do igarapé.

Após uma rápida recuperação e muita encarnação eles voltaram para casa, cresceram e o irmão mais velho se tornou bombeiro(espero que hoje ele saiba nadar). Foi naquele momento na beira do igarapé que nasceu o herói.

Ser herói é simplesmente não fechar os olhos. É usar tudo que temos, e algumas vezes o que não temos, para ajudar quem precisa ou para ir contra aquilo que achamos errado. Hoje aprendemos a ignorar as coisas, a nos calar, a permanecer na mesmice, na normalidade.

Não acredito que foram nossos educadores que nos ensinaram isso. Então acorde, levante, abra os olhos e faça a diferença pois fechá-los é o mesmo que morrer.

Têm fogo?

Fim de festa, ultimas despedidas, mais uma vez minha cabeça me prega peças, me prometo não beber mais daquela maneira. Incrível que sei que estou mentindo.

Saiu do ambiente, tenho que ir pra casa, são 4 da manha, o horário perfeito pra ter ideias estúpidas, descido ir andando para casa. Cabelo despenteado, roupa suada, pouco dinheiro na carteira, um cigarro na orelha. Tiro a camisa e começo a caminhada. Vejo as pessoas ainda nos bares bebendo, entro em ruas pouco movimentadas, um fio de sobriedade passa pela minha cabeça: O que estou fazendo aqui?

Caminho longo, perigos possíveis, já vejo pessoas esperando o ônibus, bem que eu poderia pegar um. Não, vou manter minha caminhada, chegar até meu castelo com minhas próprias pernas, enfrentando o perigo, as adversidades e principalmente o bom senso.

Após 30 minutos de caminhada já estou perto de casa, entro na praça que é meu último obstáculo, uma praça linda, arvore, luzes, história. Começo a andar por aquelas calçadas que já haviam visto tantas coisas, tantas vidas, tantos anos e penso como somos efêmeros.

Continuo a caminhada, meio da praça, olho a frente, três caras veem na minha direção, que droga penso eu, justo agora, depois de nadar tanto vou morrer na praia. Eles se aproximam, todos vestidos de preto, me pergunto o que fariam aquela hora na praça, na verdade eu já sei, só não queria aceitar. Perigo eminente pego minha camisa e coloco no outro ombro, tiro o cabelo do rosto e pego o cigarro que estava na minha orelha. Vou fazer minha aposta.

Eles continuam em minha direção, três metros de distancia, começo a falar com o cigarro na mão:

_ Irmão, têm fogo?

Eles me olham meio assustados, dão um passo para traz e balbuciam meio temerosos:

_ Agente nããão tem nada.

Eles saiam quase que correndo com medo que os assaltasse. Saiu rindo, com o cigarro na orelha novamente e me perguntando: Quando foi que nos tornamos tão covardes?

Verdade Vestida de Verde

Hoje decidi escrever sobre as maldades do mundo, sobre o quanto o homem é seu próprio algoz, sobre como a honra se perdeu ou mudou de cor, sobre como o verde de hoje não é da natureza e cada simples coisa feita, é pensada e repensada com um fim esverdeado.

O sol invade a casa, iluminando cada centímetro dessa caverna, impondo seu esplendor e mostrando um novo dia, um novo caminho, uma nova oportunidade.

Olhos abertos, verdade na cara, a caverna é a mesma, o cheiro é o mesmo, mas o tempo mudou, o tempo cai como um carrasco, dizendo que atrasado significa menos verde e menos verde significa um futuro negro, incerto.

O caminho é longo e, por todos os lados, o mundo insiste em lhe esfregar a verdade na cara, insiste em mostrar as diferenças, as desigualdades, os desejos e as decepções. Ônibus lotado, crianças chorando, o suor brota na pele, assim como o pensamento de que as coisas poderiam ser diferentes, mas não são. A vida é dura, ela não espera, ela não da trégua, ela não te afaga.

Chefe reclama, diz que é o último atraso, que depois desse é rua, mas… o que fazer? Brigar, xingar, bater … calar. É o emprego, eles te colocaram arreios, e te alimentam com capim verde no fim do mês. Eles pegaram seu orgulho, sua força, sua coragem. Juntaram bem, amassaram, cuspiram e lhe ensinaram a baixar, calar e servir.

Dia dura, trabalho duro, comida dura, perguntas e respostas duras. Voltar para casa, consolo, acalento, minha caverna. Lá eu sou rei, lá é meu mundo, minhas regras, minhas vontades, meus desejos. Faço o que quero, sou quem eu quero, tenho quem eu quero, recupero minha coragem, minha força, meu orgulho.

Lembro que a casa de um homem é seu castelo, pelo menos até o fim do mês, até o verde se fazer presente, até lembrar que se o salário atrasar é rua. Não se tira um homem de seu castelo, não, isso não se faz!!!

Melhor acordar, melhor levantar, melhor ir, o verde chama, e não como um capim, que saciava minha fome e me dava força física para enfrentar os problemas. Hoje o verde é pior, ele não alimenta, ele sufoca, te torna dependente, carente, doente, demente.

Droga! Olha à hora, preciso correr, mas um dia e já era, mas uma falta e estou fora, detesto ser mula, mas não quero perder meu arreio. Afinal, tenho que comprar aquela TV.

O que importa?

Ando querendo mais do que posso
Vendo mais do que existe
Falando mais do que penso.

Ando perdido em pensamentos
Vivendo em tormentos
Esperando momentos.

Acordo, não entendo
Durmo, não percebo
Sonho e não lembro.

Tudo se mistura,
Tudo se confunde,
Nada me acalma.

A vida passa,
Não me abraça,
Não me leva.

Em algum lugar do passado me perdi,
Em algum lugar de minha própria história.
Como posso não ser o personagem principal,
Como posso?

A luz que me guia é a mesma que me cega,
A música que me alegra é a mesma que me entristece
A água que sasseia é a mesma que me afoga.
O remédio que me cura é o mesmo que me mata,

A palavras falam comigo,
Elas querem algo, querem me mostrar algo
Algo que esta tão próximo,
E tão distante.

Tenho que fechar meus olhos,
Para ver além deles.
Tenho que fechar meus ouvidos,
Para escutar os sussurros.
Tenho que esvaziar a mente,
Para pensar no que importa.

Mas o que importa?