Amantes à moda antiga

Eles se conheceram em uma festa. Foi uma questão de fogo, depois a conversa e por fim a dançar. Mãos, braços, pernas e respiração em uníssono. Eles sabiam que aquele não era o lugar dele, muito menos o dela, mas enquanto giravam e descobriam um ao outro aquele passou a ser o lugar eternamente deles.

Essa beleza é relativa?

Essa beleza é relativa?

Uma, duas, três… incontáveis danças. A noite continuava em sua embriaguez de corpos e almas. Quando os corpos paravam as almas continuavam a sonhar, a tocarem-se e a se descobrirem.

A mudança de ambiente era inevitável, assim como o amanhecer. A luz que batia nos olhos dela era de um brilho diferente, não, ela que era diferente e transformava as coisas ao redor.

Eles finalmente se deitam e iniciam outra dança. Eles marcam o corpo um do outro. Eles machucam um ou outro. Eles sentem um ao outro.

Uma noite se transformou em dia e um dia se transformou em outro. Eles haviam visto o nascer do sol e agora viam sua passagem novamente. Vento, areia, água e lembranças.

Um passeio pelas diferenças para encontrar as semelhanças, sejam na língua, nos pensamentos, na solidão e no egoísmo. Tudo era um encaixe. Tudo uma desculpa para outra conversa ou outro beijo.

O momento da despedida chega. Eles haviam desenhado uma história, curta em tempo mas grande em sentimentos. Eles marcaram um ou outro uma ultima vez e se separaram. O pincel para um lado e a tela para o outro.

Boto Paraense

Ele saiu da água como havia feito em outras noites. A roupa é sempre a mesma: camisa, calça e paletó brancos. Na cabeça o clássico chapéu. Enquanto ele deixava a água em direção a terra seu corpo era transformado, sua forma de boto dava lugar à forma humana e ele aproveitava os prazeres da terra.

Saudades até do que não vi.

Ele se aproxima de uma bela moça e usa seus encantos para seduzi-la. Eles se amam nus a luz da lua, sem nunca tirar o chapéu, que esconde em sua cabeça o elo inquebrável com o rio. Esta é a lembrança permanente de que ele deve voltar, que por mais que ele adore aqueles momentos na terra, ele realmente pertence ao rio, pois lá esta seu coração e que o buraco escondido pelo chapéu é justamente o pedaço que jamais deixou o rio.

Igualmente ao boto, o paraense troca sua pele e sua forma quando saiu de sua terra. Experimenta coisas novas, vive outros amores. No entanto, um pedaço dele sempre fica em casa. Ele sempre sente falta dos sabores, dos cheiros e da energia. Ele pode comer a melhor comida, mas seu paladar sempre vai sentir falta de algo; pode tomar a melhor bebida, mas a sede vai continuar; pode experimentar os cheiros mais intrigantes, porem o seu olfato sentira falta de algo.

O paraense é um eterno insatisfeito quando deixa sua terra para experimentar o mundo. Ele sempre terá um “buraco”, que diferentemente do boto não é na cabeça, o buraco é no peito.

 

Voyeurismo

Não se sabe quem começou. Quem conheceu quem primeiro. Quem se relacionou primeiro. O que se sabe é que os três sempre tiveram um relacionamento.

O prazer de olhar e ser olhado

Atualmente o Sr. R. e a Sra. T. vivem como um casal. Dormem juntos, trabalham, enfim dividem tudo. Ele sempre indo e vindo mas sempre ao lado dela. Ela sempre muito integra tentando manter a compostura.

Nunca brigaram, nunca discutiram, nunca se machucaram. Religiosamente ele avança sobre ela duas vezes ao dia. Um avanço consensual e esperado. Ela o recebe ansiosa e desfruta do pleno contato entre ambos.

Nas muitas voltas que esse mundo dá eles, como casal, conheceram a Sra. L. A atração foi instantânea. Mesmo morando muito longe eles sempre se viam. L. apenas olhava e influenciava. Seu prazer era ver. Seu prazer era saber que os outros dois sabiam. Seu prazer era sentir a intensidade dos dois aumentando.

Religiosamente, o Sr. R vai acariciar a sua amada, porem dessa vez ele é mais intenso, mais forte. T. sente que algo esta diferente. Ela sente os olhos da outra e sente o amado como um animal.

Ele mantem seu movimento de vai e vem, mais forte, vai e vem, mais rápido, vai e vem, mais profundo. Ela sente o choque entre seus corpos, sente o corpo do amado, maior, preenchendo-a de todas as formas. Ele sente a influencia do olhar da amante, sabe que ela deseja e continua. Sempre mais e mais fundo, esquece os barulhos, os cheiros, a visão e o paladar, tudo que resta é o tato produzido pelo toque entre seus corpos.

Ela de longe observa tudo e vê o amado penetrando mais e mais. Vê sua amada abrindo-se cada vez mais. Ela assiste tudo com o olho bem aberto, claro, iluminando o ato. Ela vê ele explodindo nela várias e várias vezes ate que tudo se acalma.

O dia nasce e tudo volta à calmaria. O palco continua armado esperando mais uma noite. Ela vendo e influenciado e os dois se entregando a luz da Lua, no ritmo do Rio e no seio da Terra.

Presente

    Eles se conheceram da maneira mais inesperada possível. Olhares, sorrisos, caras e bocas. Tudo foi muito rápido, de desconhecidos a namorados em menos de uma hora. Um verdadeiro conto de fadas entre a princesa e o ogro.

    Após uma semana juntos já é aniversário dela. Ele tem que escolher um presente. Mas como escolher algo pessoal, algo especial se eles só se conhecem há uma semana?

    Ele pensou em perfumes. Na mesma hora lembrou do cheiro dela, daquela fragrância doce e daquela química perfeita. Ele sabia que nenhum perfume era melhor que o cheiro dela. Pensou em flores, toda mulher gosta de flores, mas ela não é uma mulher qualquer, ela é especial e merece um presente como ela.

    Roupas, bombons, sapatos. Nada parecia encaixar. Nada parecia bom. Ele era um ogro que não gostava de dar presentes, ele não gostava de estar apaixonado e agora estava quebrando a cabeça atrás do presente ideal.

    Quando ele já estava a ponto de desistir de tudo, ele colocou seus sentimentos em um papel.  Criou o presente mais caro e mais barato. Ele entregou o papel com um cartão e uma dedicatória: “Receba um pedaço de minha alma nua”.

Suor alegre

    Ruas cheias, pessoas indo para lugar nenhum. Uma multidão de seres agindo como um. Eles compartilham a rua, o ônibus e acima de tudo o calor. O suor reivindica seu lugar de direito. O corpo chora. Mais gente, mais calor, mais suor.

    Os ânimos se afloram, um grito, um palavrão. Agora eles não são mais humanos, são os pelos de uma metrópole, agindo por impulso, cravando suas raízes nela e absorvendo parte de sua essência. Eles se alimentam dela, pedaço a pedaço, ela sofre, mas é uma dor com um certo prazer.

    Os carros também se modificam, se transformam em bichos rasgando suas entranhas, fazendo barulho, gerando poluição. Eles a marcam, todo o seu corpo é usado. Desde os locais mais nobres aos mais sujos. Ela esta lá, exposta, marcada e sangrando pelas feridas.

    De repente, um barulho diferente, uma correria e os pelos se escondem. Os bichos se acalmam. O calor se atenua e o suor cede seu espaço. Por um momento ela se transforma. Ela adquire cores novas, ela fica com um cheiro diferente.

   O tempo para e os pelos contemplam a sua beleza. Agora é ela que esta suando. É mais uma tarde de chuva em Belém.

Empatia

Era uma tarde como outra qualquer. Pegou um cigarro e acendeu. Puxa. Solta. Respira. Ele fumava embaixo de uma arvore. Solitariamente ele apreciava a beleza da natureza, o vento o sol, o mundo.

Subitamente ele sentiu uma dor entre os dedos. Olhou para baixo e viu que uma formiga o mordeu. Inclinação para baixo, um dedo estendido, uma pressão, um amasso e o incomodo estava morto. Olhou e viu o corpo inerte. Um ato automático e uma vida se foi.

Ele parou por um momento e pensou: “Por que a matei?” A resposta veio rápida: “Ela me machucou!!!”, pensou novamente e isso não parecia uma justificativa para tirar uma vida. Pensou nas muitas pessoas que o machucaram por tantos anos, de maneira pior que essa formiga, e que ele nunca havia matado.

Após muita reflexão percebeu que matou a formiga porque ele tinha o poder para fazê-lo. Nesse momento pensou nas pessoas que possuem poder sobre outras. Sentiu medo e vergonha de si mesmo. Olhou mais uma vez para o corpo e percebeu que não importava o poder que ele tinha ele não podia trazê-la de volta.

Acordou assustado. Um sonho, foi apenas um sonho. Passos podia ser ouvidos lá fora. Abriu os olhos, levantou suas pequenas patas e se juntou as outras formigas.

Branca de Neve

Ela acordou e caminhou pela casa. Quase não reconheceu as paredes que foram os muros do seu castelo na infância. Viu fotos espalhadas. Lembrou das brincadeira, dos risos, dos amigos, do namorado.

Os pais a esperavam com o café à mesa. Eles parecem mais velhos, bem mais velhos. A mãe com os olhos inchados de tanto chorar. Será que brigaram novamente?

Apesar dos rostos cansados, os dois estão contentes. Felizes. Não, eles não brigaram. A mãe a olha de maneira carinhosa e lembra da menina que sujava as paredes da casa sonhando em ser pintora. O pai lembra da jovem cheia de energia que entrou na universidade, dos planos para o futuro.

Ela senta-se para comer. Pega uma colher e olha para a mão. Ela não reconhece aquela mão. Ela corre para o banheiro e olha no espelho. Também não reconhece o fantasma que esta a sua frente.

As lembranças começam a voltar de maneira dolorosa. Lembra de sair com os amigos. Uma dose, um “pega”, um “tiro”. Não fazia isso sempre, mas relaxar é bom. Imagens confusas – as drogas fazem efeito. Uma parada para outro “tiro”. Taquicardia. Paranoia. Gritos. Ela procura pelos amigos. Olha para a parada. São 2h30, o ônibus nunca atrasa. Gritos, freios, a dor, o sangue.

Foram meses no hospital. Para ela foi apenas uma noite. Para os pais, anos. Ela saiu quase ilesa. Mas todos os dias era aquela tortura matinal para lembrar o que aconteceu. Ela desce e encontra os pais e o namorado. Ela sorrir para ele e ele sorri de volta, quase chorando de tão emocionado. Ele sabe que hoje será um dos dias bons. Hoje ela lembrou dele.

Bicho de Sete Cabeças

Primeiro é uma afago, um sussurro, um sorriso. Ela chega já intimidando, mas ao mesmo tempo te fazendo se sentir em casa. É um arrepio estranho e um prazer indescritível a cada carícia. Não existe um ápice, não existe o momento culminante do gozo, tudo é um grande orgasmo.

Você tenta separar as coisas, para aproveitá-las de maneira sutil, mas ela é arrebatadora. Ela te põe no chão, te joga lá embaixo. Mas, de repente, você  percebe que esse chão é o céu. Não há palavras, bocas fechadas, ouvido atento. A pele sente o gosto, mas pode o som ter um gosto?

Após muito esforço você consegue ficar de pé e olhar com mais profundidade para ela e separar cada parte. Você se vê tocado por mil mãos, cada uma com um movimento diferente, indo a direções diferentes, mas todas lhe dando prazer.

Olhos fechados, imaginação em ação. Altos e baixos. Rápido e lentamente. O conjunto é harmônico. Mãos invisíveis lhe carregam e você é transportado para outro plano. Onde o seu corpo não existe, ou melhor, onde ele não precisa existir.

Os demais sentidos são abandonados diante da superioridade de apenas um. Sozinho ele é capaz de fornecer tudo que precisa. Cada pedaço é saboreado, com um gosto, uma textura um cheiro, uma cor única. Finalmente você se rende, perante a grandeza, delicadeza, beleza e magia de uma única canção.

Obs -> leia novamente escutando Bicho de Sete Cabeças

Eterno amigo

    Você olha, ela olha de volta. As pessoas ao redor não importam, nada mais importa, assim começa uma loucura que só poderia acabar em dor. Depois de tanto tempo juntos os mesmo olhos hoje olham para caminhos diferentes. Só queremos saber o que é preciso para curar um coração.

Tempo passa devagar

    As drogas sempre são o primeiro, pode não ser necessariamente o álcool, mas algo que nos entorpeça que nos leve para outra realidade, que nos faça esquecer desse inferno. Para alguns é o jogo, para uns a bebida e para outros a religião. No final, todos têm um rota de fuga, um local onde tentamos esquecer quem somos, ou melhor, quem tivemos.

    O fogo é o segundo. O que é melhor que uma paixão pra curar um amor “antigo”? O problema é que não estamos preparados para qualquer relacionamento. Queremos diversão, sexo, prazer, ter bons momentos, mas… ai entra um pequeno problema: A outra pessoa sabe disso? Ela saberá lidar com isso?

    O terceiro é o tempo. Ah o tempo, nosso eterno inimigo e nosso eterno amante. Ele avança de maneira feroz, dia após dia, sem descansar, sem piedade, levando o que temos de mais precioso, nossas oportunidades.

    Ainda assim, ele é nosso amigo, pois de fato é ele que cura nossas dores, ele que nos ensina a levantar, caminha e viver. Ele nos faz esquecer, superar, e quem saber novamente aprender a amar.

    Tempo maldito, como te odeio e como te amo!!!

 

Percepção Louca

Ainda me pergunto o que resultou da velha briga entre Parmênides e Heráclito.Afinal, qual dos dois deve sair vitorioso, caminhando junto com a resposta à pergunta: Devemos confiar ou não nos sentidos???

Desde que nascemos usamos nossos sentidos para descobrir o mundo a nossa volta, suas cores, sons, gostos, odores etc… Tudo é um presente dado a nós pelos nossos sentidos. Mas o que podemos fazer sem eles ou quando eles não são confiáveis?

"Isso tem gosto de arco-iris" {http://www.imdb.com/title/tt0478311/quotes}.

Foi a primeira vez que vi algo dessa forma, meu paladar era algo realmente único, a maneira de perceber as coisas era surpreendente. Comi um bolo, um bolo qualquer, não diferente de muitos que já comi anteriormente e não tão gostoso como o bolo que comia em casa na infância. Ainda assim esse bolo era único, nunca senti algo dessa forma, cada parte desse bolo era mágica, cada partícula de açúcar não era apenas doce, era como se eu estivesse lendo um livro com a língua , era tanta informação, todas juntas, cadenciadas, criando um roteiro que deixava meu paladar enlouquecido e sempre querendo mais, como um bom livro deve ser.

Decidi tomar água, limpar meu paladar. Minha surpresa, a água não era mais água, ela tinha um gosto seco, não era um vinagre, não era um vinho, mas era seco, tão seco que tentei beber novamente. Que boa surpresa tive, a água agora se comportava de maneira diferente, ela parecia água, molhada, insípida, incolor, porem não inodora, ela tinha um cheiro doce, como campos cheios de frutas. Mas como pode algo ter cheiro e não ter gosto???

Meio que cansado de minhas experiências com um paladar diferente, decidir sentar e descansar. As pessoas falavam, a musica era linda, parecia que todos estavam em uma orquestra, os versos e as histórias se juntavam, criando uma harmonia que nos permitia ouvir a música e conversar ao mesmo tempo sem perder nada de nenhuma parte.

Lá estava eu parado no meio daqueles sons lindos, quando começo a pensar que todos estavam no mesmo local, que havia muita gente junta e que a casa ia ceder, começo a sentir a casa se movendo para um lado, olho e não vejo ninguém preocupado, brigo com meus sentidos tentando por ordem a casa, meus sentidos dizem que tudo esta caindo, mas minha razão me faz ficar parado.

Decidir tentar acreditar na minha visão que ate esse momento não havia me enganado, eu ainda via as coisas bem, tudo me parecia normal, mas como posso eu dizer o que é normal, quando não tenho certeza do que vejo??? Nessa hora não sabia mais o que fazer, meu coração parecia acelerado, quente, querendo sair, bater mais forte que puder e ser livre para ver o mundo.

Acordei, com a chuva na minha janela, minha rede pendia para um lado e para o outro, a leve chuva que caia trazia consigo um ar fresco e puro, as cores estão vivas e nos seus devidos lugares, todos os meus sentidos estão normais, no entanto, a partir de hoje Parmênides ganhou um ponto a mais comigo.