Despertar

Ele praticamente não dorme. Ele não precisa disso, mais ainda, ele não pode dormir, pois ele nunca para. A única coisa parecida com descanso é um período no qual ele fica sereno, calmo, enfim, diferente.

São 2 horas da manha e ele desperta de seu descanso. Olhos cansados, ossos doendo do frio, cabelos desarrumados, palavras presas na garganta esperando pela oportunidade de fuga, cheiros diferentes, ainda novos e doces, água batendo, barcos chegando e trazendo a vida.

Seu despertar é como um parto: gritos, sangue, choros, alegrias. Seus sentidos despertam aos poucos, um após o outro pra redescobrir o mundo que foi deixado para trás.

O primeiro sentido é a visão. Uma explosão de cores e formas, dispostas seguindo a pura ordem dos caos. Aqui até o estático é belo, pois para cada lado existe a contradição. A velha briga entre o novo e o velho. Ou seria namoro?

O segundo é o tato, quando a movimentação começa, são vários ao mesmo tempo, todos caminhando, correndo de um ponto ao outro. Carrega, descarrega, joga, puxa, tira, põe.

A audição vem em seguida, respondendo aos movimentos. É um bate-bate, coisas escorregando, gritos, rissos. As palavras antes prezas se soltam, ganham a liberdade e lhe acertam com toda a força. Aqui não é uma corte, aqui é o mundo real.

Os cheiros despertam, primeiro doces, ainda misturados com o ar da madruga, depois amargos. É o suor, é a perfume, tudo vira um só. Ele lhe embriaga, ele é forte, não te deixa decompô-lo. Esse é o cheiro dele.

O paladar é o ultimo. Ele segue o olfato, porem sem a mistura. Em cada canto um gosto. É frito, cozido, assado, crú. É natural, é orgânico é puro. Gostos de todas as partes, trazidos pela maré, se juntam aqui, lhe permitindo fazer uma viagem.

Os primeiros raios de sol chegam até ele. Suas formas terminam por revelar-se, mostrando suas contradições, sua sujeira, suas imperfeições, sua beleza. É mais um dia no Ver-o-Peso.