Entardecer

As luzes apontavam para o centro do picadeiro, como setas indicando o caminho. Os sons banhavam o ambiente ao evocarem o rei. Todos os olhares, todas a atenções estavam voltadas unicamente para Sansão.

De que é feita a corrente?

Ele entrou com passos lentos e fortes, mostrando a todos suas poderosas patas. Sua juba fazia com que seu porte fosse magnífico aos olhos. Ele olhou os presentes e viu em seus olhos a mistura de encanto e medo. Ele apoderou-se de seus instintos, ergueu a cabeça e rugiu! Por um momento a luta entre medo em encanto foi vencida pelo medo e a plateia ficou apenas parada maravilhados com a presença tão forte e imponente de Sansão.

Um estalo e uma palavra de ordem… As patas de Sansão até então poderosas começam a tremer. Cabeça abaixada, agora olhando apenas para o chão. Ele para de rugir e percebe que não tem mais suas presas. Ele olha para as patas e percebe que não tem garrafas. Eles olham para ele e só o medo permanece nos olhos de Sansão.

Ele se recorda de quão forte e orgulhoso ele era, se recorda de brigar muito e de não aceitar ordens como qualquer um. Gritavam, ele rugia de volta. Batiam, ele atacava. Ele não se dobrava. Tudo que ele precisava era de seu orgulho, suas garras e presas.

Às presas foram as primeiras. Um dia o sedaram e retiraram todas. Ele acordou com um gosto estranho na boca. Com dores e percebeu que eles estavam começando a dobra-lo. As garras eram aparadas periodicamente, como um ritual para lembra-lo que ele não era nada. O orgulho se foi com o tempo e as humilhações sofridas como o abaixa e rola por conta de um pedaço de comida.

Ele estava completamente dobrado. Ele abaixou e esperou pela próxima ordem. Esperou como súdito. Esperou como menino. Esperou como leão castrado que era. Agora o obedecer garantia sua sobrevivência. Então ele miou.

Depois de ter ido ao circo ver o incrível Sansão, ele agora aproveita o dia de folga. Dia de relaxa e descansar depois de todos os dias de trabalho pesado. São sete da noite. Ele se ajoelha. Ele sabe que é mais forte, porem se ajoelha. Ele sabe que não precisa faze isso, mas algo enterrado tão profundamente na sua cabeça o manda fazer.

Ele abaixa a cabeça, de joelhos olha para o chão e de mãos atadas diz amém.