Suor alegre

    Ruas cheias, pessoas indo para lugar nenhum. Uma multidão de seres agindo como um. Eles compartilham a rua, o ônibus e acima de tudo o calor. O suor reivindica seu lugar de direito. O corpo chora. Mais gente, mais calor, mais suor.

    Os ânimos se afloram, um grito, um palavrão. Agora eles não são mais humanos, são os pelos de uma metrópole, agindo por impulso, cravando suas raízes nela e absorvendo parte de sua essência. Eles se alimentam dela, pedaço a pedaço, ela sofre, mas é uma dor com um certo prazer.

    Os carros também se modificam, se transformam em bichos rasgando suas entranhas, fazendo barulho, gerando poluição. Eles a marcam, todo o seu corpo é usado. Desde os locais mais nobres aos mais sujos. Ela esta lá, exposta, marcada e sangrando pelas feridas.

    De repente, um barulho diferente, uma correria e os pelos se escondem. Os bichos se acalmam. O calor se atenua e o suor cede seu espaço. Por um momento ela se transforma. Ela adquire cores novas, ela fica com um cheiro diferente.

   O tempo para e os pelos contemplam a sua beleza. Agora é ela que esta suando. É mais uma tarde de chuva em Belém.